Uma “tremenda” economia americana

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Na última semana, dados do mercado de trabalho dos EUA foram divulgados. Dado o estágio da economia, este ainda é, em minha opinião, o conjunto de indicadores com maior relevância para os investidores. Em tempos de eleições no Congresso do país, tais números ganharam ainda mais importância. Afinal, quais foram as novidades? Podemos tirar algumas lições disso tudo?

Em outubro, foram criados 250 mil empregos, a taxa de desemprego se manteve na mínima dos últimos 49 anos (3,7%) e a taxa de participação (força de trabalho sobre população em idade de trabalhar) cresceu. Ou seja: mais uma vez, os números foram positivos, acima do esperado pelos economistas, e corroboram a tese de que o mercado de trabalho dos EUA está bastante aquecido. Segundo o próprio Donald Trump, os números foram “tremendos”.

Não foi só isso: a média dos salários teve um crescimento forte e não observado desde 2009. Estes subiram 3,1%, na comparação com outubro de 2017. Embora a base de comparação tenha sido atipicamente baixa em outubro, após furacões no ano anterior, a verdade é que salários em alta — não só em termos nominais, mas também reais — apontam para um consumo ainda forte no país. Índices de confiança, tanto dos empresários quanto dos consumidores, seguem em níveis elevados.

Desta forma, os dados recentes parecem nos levar a duas “lições”. A primeira, mais óbvia, é que quanto mais “apertado” o mercado de trabalho, maior o poder de barganha dos trabalhadores. Agora, as empresas precisam dividir mais os seus resultados (uma forma, claro, é via aumento de salários). A segunda é menos óbvia (e ainda longe de ser consensual): o mercado ainda poderia continuar a aquecer sem, necessariamente, gerar significativa pressão inflacionária.

Se este último ponto for verdade, o Fed — o banco central dos EUA — poderia ficar um pouco menos “preocupado” com a inflação dos próximos meses. Ou seja: neste caso, precisaria subir menos os juros à frente. Há economistas, diga-se de passagem, que defendem uma “pausa” neste processo. Mesmo que a inflação não vá sair do controle, e que exista espaço para a economia aquecer ainda mais, uma “pausa” do Fed me parece pouco provável. Aliás, tudo indica que os juros voltarão a subir no mês de dezembro (terá sido a quarta elevação de juros deste ano!). Trump, em discurso recente, disse que o Fed está “louco”.

E os investidores nisso tudo? Neste ano de 2018, estes continuam a se adaptar à política monetária menos frouxa do Fed, que predominou nos anos subsequentes à crise financeira americana. O mercado de títulos vai se adaptando à nova realidade econômica e isto, por sua vez, tende a ter um impacto (negativo) nas bolsas ao redor do mundo. Na última sexta (2), quando os dados do mercado de trabalho foram divulgados, os juros dos títulos americanos de 10 anos chegaram a superar a marca de 3,20%, por exemplo. Neste contexto, nem todos os investidores deveriam torcer por uma economia “tremendamente” forte nos EUA.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista-chefe da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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