Fique por dentro do mundo da economia!


CADASTRE-SE AQUI

Uma conversa sobre austeridade

A aprovação da Reforma da Previdência em outubro do ano passado abriu as portas para a continuidade do ambicioso programa de reformas fiscais do atual governo. O resultado desejado – seja por meio da PEC Emergencial, PEC do Pacto Federativo ou Reforma Administrativa – é travar o crescimento dos gastos do governo, muitos deles obrigatórios, garantidos pela constituição de 1988. O intuito, naturalmente, é conter a dinâmica explosiva da relação dívida/PIB que crescendo forma preocupante ao longo dos últimos anos (vide figura 1). A solução adotada se resume a uma palavra: austeridade.

A austeridade, definida como uma redução de gastos ou elevação de impostos, é um tema definitivamente polêmico. Seus detratores argumentam que, por induzir uma redução dos gastos do governo, pode acabar elevando a relação dívida/PIB pois diminui o denominador. Está linha de argumentação, porém, tem uma premissa implícita por trás: assume que tudo mais está constante. O problema com este argumento é que, como quase tudo em economia, tudo mais não está constante. Muito pelo contrário, o que mais caracteriza os fenômenos econômicos é seu dinamismo. Apoiadores desta linha de argumentação se esquecem que, se por um lado a redução dos gastos públicos pode reduzir o PIB e, portanto, elevar a relação dívida/PIB, por outro, está queda pode ser simultaneamente compensada por um aumento nos outros componentes da demanda agregada, neutralizando os efeitos recessivo de uma agenda austera. No final, tais medidas acabariam elevando o denominador, reduzindo, assim, a razão dívida/PIB. O que quero dizer com isto? Olhemos para a definição do PIB pela ótica da demanda.

PIB = Demanda Agregada = C + I + G + X – M

Como se pode observar, o PIB nada mais é do que a soma da demanda privada, composta pelo consumo das famílias (C) e investimento das firmas (I); pública, representada pelos gastos do governo (G); e externa, composta pelas exportações (X) e importações (M). De fato, uma agenda de austeridade, segundo a definição acima, induz uma redução do PIB. O truque, porém, é perceber que esta redução do PIB pode ser compensada, ou até neutralizada, por um aumento em qualquer um dos outros componentes do PIB. Ou seja, pode-se estimular o consumo, investimento ou até as exportações. Analisemos de que forma este raciocínio se aplica à atual realidade da economia brasileira.

Como o próprio ministro da economia, Paulo Guedes, comunicou à mídia recentemente, o “novo normal” da economia brasileira caracteriza-se por “juro baixo e câmbio desvalorizado”. Mas o que significa isto na prática?

Ora, juros baixos, ao diminuir o custo de captação na esfera bancária, reduzem o custo de capital, estimulando a formação de novos investimentos que, ao longo do tempo, tendem a elevar a demanda, e, consequentemente, o PIB. Em símbolos: . Em palavras mais técnicas, a política fiscal restritiva ( está sendo compensada por uma política monetária expansiva .

Já o câmbio desvalorizado, ao tornar nossos produtos relativamente mais baratos no mercado internacional, estimula as exportações, criando outro canal para conter os efeitos recessivos da queda em . Infelizmente, isto não é o que tem efetivamente ocorrido, pois os efeitos positivos de uma desvalorização cambial foram neutralizados pelo enfraquecimento recente da demanda externa, fator exógeno à economia brasileira. Ou seja, determinado a partir de condições que estão fora do controle dos formuladores de políticas públicas brasileiros. Sinais advindos das principais economias ao redor do mundo ilustram que uma recuperação da demanda, principalmente na Europa, está por vir em 2020, corrigindo a tendência verificada. De qualquer forma, na última leitura trimestral do PIB, as exportações tiveram uma contribuição negativa de 2,8%.

O consumo das famílias , por sua vez, além de se beneficiar, também, da queda nos juros, aprecia um impulso adicional devido à baixa inflação, que eleva marginalmente os salários reais. A expansão do crédito, e, em específico, o crédito livre (não subsidiado), também reforça o movimento positivo do consumo das famílias.  As vendas no varejo, uma espécie de termômetro para a saúde do consumo, tem demonstrado, principalmente ao longo de 2019, um robusto crescimento. Aliás, ao decompor o PIB entre seus diferentes componentes (aqueles contidos na equação acima), observa-se que (ver gráfico 2) o consumo das famílias é o único componente que está prestes a retornas ao seu nível pré-crise de 2014.  O investimento (denominado FBCF para Formação Bruta de Capital Fixo no gráfico), todavia, tem muito caminho para trilhar, porém já demonstra sinais de retomada.

 

Em suma, por mais que o processo de ajuste fiscal, vulgo, austeridade, seja árduo e longo, não é necessariamente recessivo ou levará a um aumento da relação dívida/PIB. A própria dinâmica da economia brasileira tem demonstrado isto. De qualquer forma, vale salientar que caso os governos fossem responsáveis ao reduzir os gastos em tempos de expansão e aumenta-los em períodos recessivos, raramente precisaríamos implantar medidas austeras. Como a política fiscal está sujeita a pressões de natureza política e geralmente, mas principalmente no Brasil, não é forward-looking, este não é o caso. Em suma: A agenda de reformas deve prosseguir, pois viabiliza aumento de confiança por parte dos empresários, além de criar condições favoráveis para a política monetária.

Alejandro Ortiz Cruceno Alejandro Ortiz Cruceno

Equipe Econômica

Atualmente cursando o último ano de Ciências Econômicas no Insper. Sua principal área de pesquisa é Macroeconomia, com principal interesse em política fiscal e monetária.

109 visualizações

relacionados

Utilizamos cookies para melhorar a sua navegação

Entendi
Bitnami