Um país com a economia em ponto morto

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A economia brasileira tem decepcionado, e muito, quando o assunto é crescimento. Começou-se o ano com a expectativa de que a economia iria crescer pelo menos 2,5% e agora existe uma torcida para que ela cresça pelo menos 1%. Em meio ano, a expectativa caiu mais que pela metade, uma clara luz de alerta que algo está muito errado.

Desde o começo do ano, os sinais amarelos foram se acumulando. Em janeiro, fevereiro e março os principais indicadores de atividade, como as pesquisas mensais do comércio, indústria e serviços, todas computadas pelo IBGE, já vinham mostrando que as coisas não estavam nada bem. Para se ter uma ideia, o setor de serviços que corresponde a mais de 70% da composição do PIB, teve retração nos 3 primeiros meses do ano. Em março o setor chegou a cair mais de 2,37% em relação ao mesmo mês de 2018.

Sobre o emprego, nem se fala. São quase 13 milhões de pessoas desocupadas, o que corresponde a uma taxa de 12,5%. Apesar da taxa estar se reduzindo, principalmente quando olhamos o número sem as oscilações sazonais, chegamos a 12%. Porém, existe um contingente gigantesco de pessoas que não estão trabalhando e que não é refletido nesse dado. Segundo estimativas do IPEA, a taxa de subutilização de mão de obra chega a 25%. Traduzindo em números: 28 milhões de pessoas sem trabalhar.

Esse quadro de sistêmica fraqueza econômica ficou exposto no resultado do PIB referente ao primeiro trimestre de 2019. Comparado ao último trimestre de 2018, a economia se retraiu -0,2%. Um dado assustador, ainda mais em um ano onde as expectativas de crescimento eram bem elevadas. Olhando frente ao primeiro trimestre de 2018, a economia avançou apenas 0,4%. O que tudo isso quer dizer? Que estamos em ponto morto.

O que falta para o Brasil voltar a crescer?

Afinal de contas, a economia tem baixa inflação, juros historicamente baixos e muita capacidade ociosa. Podemos olhar dentro dos componentes da demanda do PIB para responder essa pergunta. Vamos cometer o sacrilégio de incluir uma simples identidade contábil: PIB = C + I + G + (X-M).

A identidade acima é o chamado PIB pela ótica da demanda, que nada mais é que (C) consumo + (I) investimento + (G) gastos do governo + (X) exportações – (M) importações é igual ao PIB. Vamos ver quais as perspectivas para cada um desses componentes.

O consumo (C), é um que tem tudo para voltar a crescer, uma vez que os juros estão baixos, logo existe impulso que pode vir no consumo de bens duráveis, como carros e eletrodomésticos. Porém, com o desemprego nos níveis atuais não existe impulso grande para vir do consumo, por enquanto. Além do temor daqueles que estão empregos em perderem seus empregos, que posterga a decisão de consumo, mesmo daqueles empregados.

Gastos do governo (G), não existe muito o que discutir aqui, as restrições fiscais que o governo enfrenta colocam um freio muito grande sobre a possibilidade de algum impulso de crescimento vir pela expansão dos gastos do governo.

Exportações líquidas (X-M), que nada mais são que as exportações menos as importações. Esse tem sido um impulso positivo a alguns anos já. Com a crise da diminuição da renda nacional, as importações caíram naturalmente, enquanto as exportações se mantiveram relativamente estáveis. Apesar deste dado apresentar uma dinâmica positiva, não existe nenhum vetor global que façam nossas exportações ganharem muito em valor.

As tensões comerciais entre Estados Unidos e China, além de um temor de uma desaceleração das maiores economias do mundo, prejudicam o preço dos principais produtos que exportamos, como soja e minério de ferro.

Por fim, nos resta o investimento (I). Este sim pode ser o salvador da pátria. Porém, investimento só vem com alta na confiança e baixa incerteza, dois pré-requisitos que estamos longe de ter hoje. Para diminuir a incerteza é de extrema importância que fique claro para os investidores de que o país irá superar o seu maior desafio: as contas desajustadas do governo.

Para que o desafio seja superado, a reforma da previdência é condição necessária. Uma economia robusta, representa uma firme pisada na embreagem da nação. Sozinha, não propulsiona o Brasil em diante, mas sem ela é impossível engatar a primeira. Felizmente, quase todos em Brasília querem tirar o carro da garagem para dar uma voltinha. Caso o governo pise firme na embreagem da reforma, o investimento deve agarrar o câmbio, acelerando as exportações, virando o volante da economia em direção ao consumo, para finalmente tirar a Brasília da garagem.

Victor Candido Victor Candido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

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