Um “crash” adiante: deveríamos estar mais preocupados?

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Após retornos extraordinários do mercado acionário dos EUA, questionamentos com relação à duração do chamado bull market têm aumentado. As ações americanas, no acumulado de 2018, já sobem quase 4x mais do que o resto do mundo. Além deste “descolamento”, chama a atenção o desempenho de alguns setores específicos, na comparação com o retorno médio do próprio país. Neste contexto, poderíamos nos perguntar: estamos diante de uma bolha? A probabilidade de um “crash” tem aumentado?

Um artigo recentemente publicado por 3 economistas de Harvard trata do assunto. Estes levantaram dados de 40 episódios nos Estados Unidos e de 107 no restante do mundo em que “alertas de bolha” teriam aparecido. O tal “alerta” é registrado a partir do momento em que um determinado setor registra retornos de 100% acima da média do mercado, dentro de um período curto, de até 2 anos. Ou seja: de forma arbitrária, estabeleceram um critério para dizer se os retornos de um determinado setor estariam ficando exagerados. O período analisado para os Estados Unidos vai de 1928 a 2012; para o resto do mundo, de 1987 a 2012.

Conclusões do estudo:

1- Expressivas elevações de preços, em média, não indicam — ou seja, não nos ajudam a prever — retornos especialmente baixos à frente. Na prática, nos 2 anos seguintes ao “alerta de bolha”, a média dos retornos de tal setor não foi muito diferente à do mercado como um todo.

Ou seja: retornos exuberantes nem sempre precedem um “crash”. Dos alertas que foram analisados nos Estados Unidos, 21 acabaram se transformando em um “crash”; do resto do mundo, 54. Ou seja: em média, 50% dos alertas foram “falsos”. É fácil lembramos daqueles episódios em que uma tal “bolha” estourou, mas deixamos de considerar, neste tipo de análise, aqueles períodos em que, mesmo após expressiva elevação de preços, não houve uma correção de preços.

2 – Apesar de os economistas não conseguirem aprimorar a projeção dos retornos futuros (nem mesmo considerando os casos em que o “alerta de bolha” é dado!), a probabilidade de um “crash” aumenta à medida que os retornos do ativo se tornam mais expressivos.

Neste estudo, os economistas definiram o “crash” como sendo o recuo de ao menos 40% dos preços, levando em consideração o período de 2 anos que sucede tal “alerta de bolha”. Segundo o estudo, quando o retorno líquido do setor — ou seja, o retorno do setor levando em consideração o retorno médio do mercado — passa de 50% para 100%, a probabilidade de um “crash” mais do que dobra (passa de 20% para 53%).

Os itens 1 e 2 podem parecer contraditórios num primeiro momento, mas não são. É importante fazer uma diferenciação entre a projeção de “retornos esperados” e de “probabilidade de crash”. Uma das razões para isto é que o “pico” da bolha que precede um crash é muito difícil de prever. Mais: mesmo após o “alerta” foi dado, é comum ver preços em alta por mais algum tempo, antes de o “crash” se tornar uma realidade. Desta forma, se o investidor continuar com o ativo em seu portfólio durante um período de tempo razoável, é possível que o retorno final acabe sendo positivo, mesmo considerando o “crash”.

Aliás, vale voltar aos dados: considerando os 21 períodos em que houve, sim, um “crash” nos Estados Unidos após o “alerta de bolha”, os preços atingiram o seu “pico”, em média, somente 6 meses após o alerta acontece. Neste período — entre “alerta” e início do “crash” –, a média dos retornos foi de 30%. Isto reforça algo que muitos já sabem: é difícil apostar contra uma alta dos preços, mesmo sabendo que uma bolha está se formando e possa culminar num “crash” mais adiante.

3 – Setores que apresentaram um “crash” na sequência do “alerta” apresentam características que são significativamente diferentes àqueles que não observaram um “crash”. Estes apresentaram (i) maior volatilidade; (ii) maior intensidade na emissão de ações; e (iii) aumentos especialmente rápidos de preços nas empresas mais novas.

Em suma: a partir de um certo ponto, retornos expressivos e acima da média do mercado estão sim associados com uma probabilidade maior de “crash” à frente. Isto, no entanto, não é necessariamente útil para fazer previsões de retornos. Muitas vezes, o tal “alerta de bolha” não se transforma num “crash”. Economista ainda não conseguem prever, com razoável exatidão, o próximo “crash”. Mas isto não quer dizer que eles não existam. Muito pelo contrário.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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