Na política, quais foram os últimos destaques? Com a proximidade das eleições, torna-se cada vez mais difícil falar em economia sem pensar em política. É neste contexto que chamamos a atenção para a “surpresa-Barbosa”, mas destacamos que Bolsonaro segue firme na liderança. Até junho/julho, é possível que candidaturas de centro, tidas como “reformistas”, se unam em torno de uma única chapa. Mas, até lá, vale monitorar a capacidade de fazer política de Barbosa. E pensar na capacidade que Bolsonaro terá para não assustar o grande público.

Nos últimos 12 meses, segundo o Google Trends, houve 2 momentos de grande destaque envolvendo o ex-presidente Lula: o 1º, no julgamento do TRF-4, dia 24 de janeiro; e o 2º, no início de abril, quando o juiz Sérgio Moro, após o STF negar o habeas corpus, mandou prender Lula. Mas, aos olhos do mercado, foi o 1º evento o mais relevante. Afinal, naquele momento ficou evidente que Lula não conseguiria ser candidato.

Ao observar o Ibovespa em dólares, no acumulado deste ano, vemos que a máxima foi dia 26 de janeiro. O impulso extra veio do front político, mas é fácil concluir que o mercado internacional – neste caso, o dos EUA – segue sendo relevante para nós aqui no Brasil. De lá para cá, o Ibovespa não conseguiu ganhar tração.

gráfico indicando a popularidade de lula no google trends

gráfico indicando o desempenho do IBOVESPA e do índice S&P 500

O PT não tem plano “B”, mas outros B’s chamam a atenção…

Sem Lula, o PT tem 2 opções: (i) uma candidatura própria, com Jaques Wagner ou Fernando Haddad, ou (ii) apoiar outro partido de esquerda. Embora a 2ª opção seja menos provável, uma aliança com o PDT, de Ciro Gomes, é algo a se monitorar. Se crescer esta possibilidade, aumentará a preocupação do mercado. Óbvio. Por enquanto, vemos um risco baixo disto acontecer.

Segundo o último Datafolha, sem Lula na corrida, Jair Bolsonaro (PSL) segue em 1º lugar, com 17% das intenções de voto. Em 2º, mas tecnicamente empatada com o 1º, Marina Silva (Rede), com 15-16%. Em 3º, mesmo sem ser oficialmente um pré-candidato, Joaquim Barbosa (PSB), com 9-10%.

Sem deslanchar, as candidaturas de centro, tidas como reformistas, seguem fragmentadas. Temer (MDB) oscila entre 1-2%, Meirelles (MDB) e Rodrigo Maia (DEM) não passam de 1%. Geraldo Alckmin (PSDB) – quem, a princípio, pode aglutinar forças até junho ou julho –, não saiu dos 7-8%. Vale lembrar que há um “risco-delação” que recai sobre o tucano. Se o imponderável acontecer, não é improvável uma substituição por João Dória, por exemplo.

De volta a Joaquim Barbosa: é, em nossa opinião, uma das grandes “surpresas” até aqui. Segundo o cientista político Carlos Melo, do Insper, Barbosa “surge como uma espécie de reação ‘a tudo isto que está aí”. Concordamos. E mais: Barbosa é carregado de símbolos. “Espelha o menino, mineiro, negro e pobre que venceu preconceitos e a vida”, afirma Melo. Além disso, tem uma rejeição baixíssima: segundo o Datafolha, apenas 12%. Vale a comparação: Temer tem 64% (o campeão!), Bolsonaro (PSL) 31%, Alckmin (PSDB) 29% e Marina (Rede) 22%.  

Do lado negativo, Barbosa precisa mostrar que é um bom político. Precisará fazer alianças dentro e fora do partido. Dentro do partido, o desafio é claro: políticos têm trabalhado em alianças locais, ao redor do Brasil, e ter um candidato próprio, neste ambiente, adiciona complexidade às negociações. Até aqui, Barbosa não fez articulações. Apenas se filiou e esperou a manifestação do eleitor. Precisará mostrar que tem condições de reunir uma boa equipe. Afinal, quem fará parte da equipe econômica?

Em meio a um PT sem “plano B”, um “centro” fragmentado e Barbosa numa crescente, não se esqueça: Bolsonaro segue em 1º nas pesquisas. Embora digam que possa ter chegado a um “teto”, o seu posicionamento mais de “centro” pode mantê-lo forte. Vale registrar: segundo o Datafolha, 11% dos entrevistados disseram, de forma espontânea que votariam nele – número comparável, apenas, aos 13% de Lula. Outros nomes, incluindo Ciro Gomes, Alckmin, Marina e o próprio Barbosa têm meros 1%, neste tipo de comparação. Neste levantamento espontâneo, 46% dos entrevistados não sabem, ainda, em quem votarão para presidente.

E os próximos passos?

Linha do tempo dos eventos até as eleições gerais

Até junho/julho, tende a continuar elevada a fragmentação dos partidos de centro. O período de convenções é que servirá como deadline para que candidaturas, como as de Maia, Temer e Meirelles, tomem outro rumo. Alckmin, portanto, pode fortalecer-se, às vésperas do início de propaganda eleitoral. A depender das alianças, pode ter quase 60% do tempo de televisão! Até lá, dois nomes nos chamam a atenção: Barbosa e Bolsonaro. O 1º precisará mostrar que sabe fazer “política”. O 2º que pode falar com o “público”. Ou melhor, o “grande público”.

Teremos ao menos um “B” no 2º turno?

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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