Um acordo entre EUA e China (sólido como panquecas)

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“Acreditamos que a probabilidade de qualquer acordo [entre EUA e China] é baixíssima no curto prazo”, afirmavam analistas de um banco estrangeiro, pouco antes da reunião do G-20, na Argentina. Eles — assim como a maioria dos investidores — erraram. O alívio, que deve durar ao menos 90 dias, fez com que as bolsas internacionais voltassem a subir ao redor do mundo. À luz dos recentes acontecimentos, o que podemos dizer sobre a guerra comercial?

A grande pergunta é: será este um ponto de inflexão nas discussões? Na última sexta (30), o jornal Financial Times compilou diversas análises sobre a reunião do G-20 que se aproximava. As atenções estavam voltadas à reunião entre Donald Trump e Xi Jinping. Esperava-se pouco, ou nada, de tal encontro em Buenos Aires. Após o alívio nas tensões, no entanto, ainda é difícil acreditar que tal acordo, temporário, se transformará em um alívio permanente entre tais nações.

O que ficou decidido?

A China aumentará as compras de produtos americanos, incluindo energia e alguns bens industriais; e os EUA postergarão uma escalada na guerra tarifária, que elevaria impostos, de 10% para 25%, sobre US$200 bilhões de produtos chineses a partir do primeiro dia de 2019. Decidiu-se que estas elevações de tarifas ficarão suspensa até, no mínimo, o primeiro dia de abril de 2019. Se este não será um acordo permanente, outra pergunta torna-se pertinente: o “alívio” durará ao menos até abril do ano que vem?

Os compromissos são bastante frágeis. Há pouquíssimas garantias; e ambos países precisarão evoluir em seus compromissos. As negociações precisarão continuar, é claro. E é difícil vislumbrar que assuntos como propriedade intelectual saiam do radar. Como prova da fragilidade do acordo, basta lembrar que, pouco antes de embarcar para a Argentina, Trump afirmou a jornalistas: “Eu não sei ainda o que quero fazer”. Quando decidiu, surpreendeu. As bolsas americanas terminaram a segunda (03) em alta; puxadas para cima, também, pelas cotações do petróleo que subiram.

Ainda sobre a dificuldade de prever as decisões de Donald Trump, a revista britânica The Economist brincou: “Talvez tenha sido a sobremesa de panquecas enroladas em caramelo, chocolate crocante e creme fresco. Ou talvez Trump tenha decidido ao longo do jantar [com os líderes chineses]”. Fazer apostas tentando prever decisões do presidente Trump em relação à China são muito arriscadas. Diga-se de passagem, o conflito entre tais países vai muito além da questão comercial. São “superpotências” que lutam por uma espécie de “dominância global”.

Quanto à “guerra comercial“, parece óbvio que um acordo mais estável entre EUA e China deveria envolver outros países. A União Europeia e o Japão, por exemplo, concordam com os EUA em vários pontos. Mas uma resolução que envolva a Organização Mundial do Comércio parece longe do radar. Aliás, mesmo que estivesse, seria lenta. E o presidente dos EUA não parece disposto a negociar desta forma; é muito mais adepto dos acordos unilaterais. A sua decisão no último final de semana, acompanhada de panquecas com caramelo e chocolate, é uma prova disto.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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