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Trump está fazendo um bom trabalho?

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À primeira vista, a economia dos Estados Unidos parece sólida e saudável. Com as bolsas próximas das máximas históricas e um crescimento do PIB ainda forte neste início de 2019, o presidente Donald Trump tem dito que ela está “great” (ótima) outra vez. Mas será verdade? As políticas implementadas por seu governo estão tendo os efeitos desejados? O que podemos falar da política fiscal e comercial desta administração? Como julgar o governo Trump?

Antes de mais nada, vale destacar alguns números sobre a economia americana. Do lado positivo, temos que o PIB cresceu num ritmo atualizado de 3.1% no primeiro trimestre de 2019, e a taxa de desemprego está em meros 3.7%. Mas o ritmo já parece desacelerar. No segundo trimestre, o PIB avançou 2.1%; e as projeções para os próximos trimestres não são de aceleração. Segundo o último relatório do FMI, a economia americana crescerá 2.6% em 2019, e 1.9% em 2020. Ou seja: à frente, não espere que as políticas de Trump consigam manter o ritmo dos últimos trimestres. Os recentes estímulos fiscais não farão o boom durar para sempre. Pelo contrário: subtraíram espaço para que tais medidas pudessem ser utilizadas quando, de fato, fossem necessárias. Afinal, vale lembrar que o déficit segue aumentando.

Além disto, outros números sobre os Estados Unidos parecem reforçar o prognóstico menos animador para o crescimento econômico. Em julho, a média de horas trabalhadas na indústria recuou para o seu menor nível desde 2011. E, numa perspectiva um pouco mais ampla, temos que os salários reais estão praticamente estagnados há uma década. Ou seja: nem todos têm se beneficiado da recuperação dos últimos anos. Mais: a despeito dos estímulos fiscais de Trump — cortes de impostos para as empresas, em 2017; e dois acordos para aumentar a capacidade de gastos públicos, tanto em 2018 quanto em 2019, visando evitar o chamado “shutdown” (paralisação de atividades) —, o investimento real em proporção do PIB está bem abaixo dos patamares atingidos no final da década de 1990.

Alguns economistas são ainda mais críticos e afirmam que o governo Trump também tem contribuído para piorar a distribuição de renda entre os americanos, por exemplo. Ao tornar-se cada vez mais desigual, os “insatisfeitos” com a sua situação econômica tendem a votar em opções mais “arriscadas” ou até mesmo “extremistas”. Explica-se assim o apoio que Trump teve nas eleições de 2016, e esta insatisfação (possivelmente crescente) tende a mantê-lo forte na disputa presidencial de 2020. Ao redistribuir renda dos mais pobres para os mais ricos por meio de políticas fiscais que diminuíram os impostos de empresas e pessoas de classe muito alta, por exemplo, a chamada “demanda agregada” do país tende a diminuir. Afinal, o consumo marginal dos mais ricos é menor que o dos mais pobres. Este é um mecanismo simples que ajuda a entender o efeito negativo da desigualdade sobre a economia do país como um todo.

Uma outra área importante da atual administração é a política comercial. Aqui, mais uma vez, as intenções de Trump podem acabar tendo um efeito contrário àquele desejado. A tensão com a China — e a imposição de tarifas aos seus produtos importados — pode em nada ajudar a impulsionar o PIB americano, como pretende o republicano. De fato, tal política é algo que parece ter contribuído para que o dólar continue a se fortalecer no cenário internacional. Aliás, vale notar que o dólar index — o dólar contra uma cesta de moedas de países desenvolvidos — já se valoriza mais de 6% desde o início de 2018, quando a tensão comercial com os chineses começou a se intensificar. Registre-se: de acordo com modelos de comércio internacional (o modelo “Mundell-Fleming” com câmbio flutuante, por exemplo), a imposição de taxas sobre produtos importados não alteraria o PIB do país que impôs as tarifas, porém, apreciaria a sua moeda frente à moeda do exportador de modo a manter os preços dos seus produtos importados inalterados em termos reais.

A economia dos Estados Unidos segue forte no curto prazo, mas não há garantias de que Trump será bem-sucedido daqui em diante. Algumas de suas políticas podem ter surtido efeitos positivos que a ajudaram a acelerar num primeiro momento, mas não parecem capazes de manter tais efeitos no médio e longo prazos. Pelo contrário. Já temos alguns sinais de desaceleração, e um banco central que começou a cortar os juros para ajudá-la, diga-se de passagem. Além disso, é também importante considerar os efeitos indesejados das políticas até aqui implementadas (como é o caso da política fiscal e a política comercial, por exemplo). Engana-se quem acredita que o governo Trump está cumprindo os seus objetivos.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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