Trump e populistas: o maluco mais inteligente do pedaço

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O ano era 2016 e acompanhamos estupefatos a corrida eleitoral americana. Como aquela figura caricata, que parecia tão distante de ter os skills necessários para exercer a presidência do país mais poderoso do mundo. Para a esmagadora maioria, Trump não tinha a menor condição de vitória. Porém, para um observador astuto, Trump seria vencedor desde o primeiro momento que anunciou suas intenções de participar. Ele se mostrou ser o maluco mais inteligente do pedaço.

Scott Adams’s, cartunista famoso e criador da série de tirinhas Dilbert, reconheceu em Trump uma série de características, que ele chama de mestre persuasivo. Para Adams, Trump era altamente habilidoso em explorar recursos e figuras de linguagem de forma a persuadir pessoas de que ele seria o melhor candidato.

E desde 2015, quando Trump de fato tomou a decisão de ser candidato, Adams já escrevia em seu blog que ele seria vencedor. Atraindo para si uma legião de seguidores fiéis, apoiadores do Trump e odiadores fiéis também (os famosos haters).

Trump venceu e Adams foi alçado à categoria de astuto observador político. Mas o próprio reconhece que não foi preciso muito para prever isso. E decidiu colocar todo o toolkit de como explorar as mentes e corações das pessoas. É a nossa dica cultural de hoje: Ganhar de Lavada – Persuasão em um mundo onde os fatos não importam.

Trump

Trump é um persuasor mestre. Ele sabe como comandar a atenção, estabelecer uma estrutura de poder para si, manipular a mídia a seu favor e colocar mensagens e temas dentro da cabeça do eleitor. Trump cometeu muitos erros ao longo de sua candidatura e presidência, mas sabe minimizar os danos, sobreviver e se adaptar, segundo Adams.

Adams usa toneladas de exemplos e análises ao longo do livro para descrever por que Trump é tão bom em persuasão. Ele discute os erros constantes da campanha de Hillary até o momento em que contratou Robert Calidini. Nesse ponto, você também pode começar a aprender com alguns dos sucessos de sua campanha, frutos do uso das mesmas armas de Trump, mas aí já era tarde demais.

Para Adams, Trump consegue explorar os vieses cognitivos dos cérebros alheios de forma muito eficaz. Vieses são automatismos de nossos cérebros que não percebemos na maioria das vezes, mas que são de extrema importância na forma em que vemos e interpretamos o nosso mundo.

O principal deles é o viés de confirmação. Se um eleitor do Trump era exposto a uma fala polêmica do candidato, como por exemplo a ideia de construir um muro na fronteira com o México, ele apenas confirmava para si próprio que aquilo era a coisa mais correta do mundo e que Trump era o candidato certo. Ao mesmo tempo que o eleitor democrata (que provavelmente apoiou a Hillary), vendo a mesma fala, diria que o Trump é doido. Dois lados da mesma moeda.

Um ponto-chave ao longo do livro é que não somos racionais mais de 10% do tempo, por causa dos vieses, e essa racionalidade é, na maioria das vezes, apenas uma miragem. Achamos que somos mais racionais do que isso, mas isso é porque nossos egos nos impedem de imaginar que somos mais irracionais do que realmente somos.

Somos apenas racionais com pequenas decisões, como quando sair de casa para ir trabalhar. Quando se trata de nossas crenças, percepções e ações, somos movidos por um comportamento “irracional”. A divisão entre o racional e o irracional causa a dissonância cognitiva.

Adams dá alguns “relatos” para quando alguém está experimentando dissonância cognitiva, como uma palavra zombeteira ou um acrônimo associado a um absurdo absoluto, ou uma palavra zombeteira ou um acrônimo combinado com um insulto pessoal muito mais agressivo do que a situação justifica.

Muitos exemplos estão espalhados por todo o livro. Quando você ajuda as pessoas a perceberem que elas não têm uma razão racional para suas crenças, elas o atingem com esse tipo de resposta. Expor isso é uma chave para ganhar um argumento.

Outro dos conceitos mais importantes deste livro é o “filtro“. Os filtros são basicamente a lente em que vemos o mundo. Scott Adams discute como vemos o mundo através de filtros diferentes e que não precisamos entender logicamente o mundo para sobreviver. Podemos fazer o nosso melhor para definir qualquer filtro em palavras; isto é, um “filtro de racismo”, um “filtro de persuasão”, etc., baseado nos traços definidores daquele filtro.

Este é um excelente ponto de partida deste livro: é uma mudança significativa de mentalidade na visualização e aproximação da interação humana. Ele argumenta que o filtro que escolhemos para a realidade deve nos fazer felizes e prever bem o futuro.

Outro ponto interessante é o pensamento de que Trump intencionalmente enganou as pessoas para fazer uma mensagem grudar em suas mentes. Por exemplo, quando ele disse que os imigrantes ilegais são “assassinos, estupradores e alguns eu suponho que são pessoas boas”. O debate desencadeado faz com que a mensagem fique na mente das pessoas porque elas são levadas a acreditar que a mensagem deve ser importante, pois está em constante debate. Isto é o persuasão realizado por um verdadeiro mestre.

Há muito mais a aprender com o Ganhar de Lavada do que apenas esses tópicos. Este livro é carregado com sabedoria, não apenas para explicar o passado, mas traz grandes insights de marketing, política e porque populistas sobem ao poder com os discursos mais malucos possíveis.

Eu poderia falar por horas do livro, mas recomendo fortemente que você o leia!

Victor Cândido Victor Cândido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

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