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Tensão internacional: ruído ou sinal?

A volatilidade voltou nos mercados internacionais. A expectativa de que o mês de agosto pudesse ser tranquilo ficou para trás, após aumento da tensão entre EUA e China. Assim, diante do crescente receio de uma desaceleração econômica global, diversos bancos centrais têm mudado a sua postura e, em diversos casos, surpreendido aos investidores com cortes de juros. Quais foram os últimos a adotarem tais medidas? Devemos esperar mais “ajuda” dos bancos centrais? Em relação à tensão comercial, é razoável imaginar que Trump continuará a pressionar a China? Deveríamos apostar que, de olho nas eleições presidenciais de 2020, Trump mudará a sua postura?

A tensão comercial internacional segue no centro das atenções e não há, neste momento, razões para acreditar que ela se dissipará no curto prazo. Aliás — como já comentei sobre para onde vamos —, nem mesmo aqueles investidores com um horizonte de médio prazo (acima de 12 meses) deveriam ter um cenário-base contando com a resolução dos conflitos entre EUA e China. Muito pelo contrário. É possível que reações muito negativas dos mercados e/ou um efeito adverso sobre o consumo dos americanos façam Trump reconsiderar novas elevações de tarifas — por exemplo, aumentar de 10% para 25% as taxas recentemente anunciadas aos produtos chineses —, porém, parece muito improvável que ele volte atrás. À frente, o viés segue sendo desfavorável.

Muitos analistas têm afirmado que um aumento da tensão comercial entre EUA e China não seria benéfica para nenhum dos países envolvidos e, portanto, não deveríamos acreditar que estes conflitos se arrastarão por mais tempo. Como consequência, não deveríamos nos preocupar com as reações dos mercados. Estas seriam apenas “ruído”; não seriam “sinais”. Embora possa fazer algum sentido, não é, em minha opinião, insensato dizer que Trump tem incentivos políticos para continuar com as ameaças (mesmo que isto não implique, necessariamente, em um acordo comercial). Pesquisas recentes mostram que os americanos — especialmente os republicanos — apoiam a pressão dos EUA sobre a China. Registre-se: quase 70% deste grupo de eleitores defende tal imposição de tarifas. E nem todos os democratas são contrários. No Senado, por exemplo, Chuck Schumer tem apoiado tal política comercial. Ou seja: há, sim, algum racional político para continuar com esta “guerra” por mais tempo.

Embora possa haver discordâncias quanto aos reais incentivos políticos de Trump, restam poucas dúvidas quanto à sua forma de pensar. Trump acredita — e já disse reiteradas vezes — que as tarifas e uma postura mais agressiva aumentam o poder de barganha dos EUA com os seus parceiros comerciais. Recentemente, por exemplo, afirmou que as tarifas sobre o alumínio e o aço o ajudaram a costurar um acordo mais favorável com o México e o Canadá, culminando com o chamado de “NAFTA 2.0”. No mínimo, dirá que a imposição de tarifas à China trouxe o país à mesa de negociações — algo que, a despeito da ineficácia dos efeitos até aqui, não deixa de ser verdade. Em minha opinião, parece evidente que o republicano usará esta tensão comercial como forma de promover a sua campanha eleitoral até o final de 2020. É, em última instância, uma forma de criar um “inimigo” comum, com alguma capacidade para unir a maioria dos republicanos e, quem sabe, alguns democratas.

Como reação ao aumento da tensão comercial — e a maior probabilidade de a economia global desacelerar —, diversos bancos centrais ao redor do mundo têm decidido adotar políticas de estímulo. O primeiro corte de juros nos EUA em mais de uma década deve ser entendido neste contexto, por exemplo (leia mais aqui). Nesta semana, os bancos centrais de Nova Zelândia e Índia surpreenderam aos investidores, anunciando cortes de juros. Não será uma surpresa se outras instituições seguirem o mesmo caminho. É o mais provável. Nos EUA, o mercado já precifica ao menos outros quatro cortes de juros (100 pontos base) até o final de 2020, embora a instituição tenha evitado se comprometer com algum cronograma na semana passada. Aos olhos de hoje, tudo aponta para uma continuidade da tensão comercial entre EUA e China no exterior; e bancos centrais expansionistas, tentando evitar uma desaceleração econômica. Não há garantias, no entanto, que estes serão bem-sucedidos. Mas há motivos o suficiente para que os investidores mantenham uma postura mais defensiva no cenário internacional.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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