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Tensão internacional: para onde vamos?

Nesta segunda-feira (05), após o acirramento das tensões comerciais entre EUA e China, os mercados globais reagiram de forma bem negativa. O nível de aversão a risco subiu de forma razoável e, como reflexo disto, as bolsas globais fecharam no vermelho, as moedas dos países emergentes se depreciaram e os juros dos títulos soberanos de EUA e Alemanha, por exemplo, atingiram novas mínimas. O investidor buscou proteção, como era de se esperar. O humor mudou, a “guerra comercial” voltou ao centro das atenções e, agora, é um momento propício para que o investidor se questione: seria esta uma oportunidade de “compra” ou uma espécie de “aviso” sobre os perigos que se aproximam? Para onde vão os mercados internacionais?

A julgar pelas reações dos investidores às sinalizações dos líderes de EUA e China desde a última sexta-feira (02), parece razoável dizer que, neste momento, poucos esperavam tal retrocesso nas negociações comerciais. Não é, no entanto, algo que deveria ser tão surpreendente. Há um bom tempo venho argumentando, em meus textos no blog da Guide, que tal tensão entre EUA e China está longe de se dissipar. Aliás, é muito provável que Donald Trump tente usar tal tensão com os chineses a seu favor na próxima campanha eleitoral. Registre-se: as eleições presidenciais nos EUA estão marcadas para o dia 3 de novembro de 2020. Considerando que os chineses responderão às retaliações dos EUA, parece haver espaço para outras rodadas de preocupações quanto às perspectivas para a economia global. O FMI tem razão: a “guerra comercial” é um dos grandes riscos no cenário internacional.

Como reflexo deste ambiente, o mercado acionário dos EUA teve nesta segunda-feira o seu pior dia de 2019. O índice S&P 500 atingiu a mínima dos últimos dois meses, caiu 3%, e agora está 6% abaixo da sua máxima histórica, atingida em julho. Segundo as contas da Bloomberg, as empresas americanas “perderam” mais de US$700 bilhões em valor de mercado, e somente 11 empresas listadas no índice não terminaram no vermelho. Dentre os setores mais sensíveis estão os de tecnologia, consumo discricionário e indústria. Num momento em que os preços dos ativos estão bastante “esticados” nos EUA, continuo a acreditar que o viés é muito menos favorável hoje do que no passado recente. Isto pode ser visto se contabilizarmos o valor de mercado das empresas americanas (índice Russell 1000) e dos títulos do país (índices ICE BofAML U.S. Aggregate, U.S. High Yield e U.S. Municipal) em relação ao PIB. Hoje, tal métrica, acima dos 250%, está nas máximas históricas.

 

 

O gráfico anterior parece ser um “aviso”: embora a “guerra comercial” seja importante — e não tenhamos motivos para acreditar que tal tensão entre EUA e China irá se dissipar por completo no curto (nem médio) prazo —, o viés para os próximos anos não parece ser dos mais brilhantes. Pelo contrário. Isto, diga-se de passagem, reforça o tom de cautela que tenho expressado em meus textos quando me refiro à sustentabilidade do bom momento dos mercados internacionais. Se no curto prazo temos visto, com bons olhos, a tentativa dos bancos centrais de estimularem as economias (como aconteceu nos EUA e na Europa, por exemplo), no médio prazo é difícil imaginar que esta tendência continuará. Lembre-se: tal inflexão, mais cedo ou mais tarde, acontecerá. O difícil será acertar o timing desta inversão. Se “sair” antes, corre-se o risco de perder o final da festa. Se decidir ficar, corre-se o risco de passar do ponto, e a ressaca ser forte após o seu término.

Neste contexto, para investidores com horizonte mais curto, os movimentos desta segunda-feira podem ser um interessante momento de “entrada”. Para aqueles com um horizonte mais longo, os movimentos recentes soam muito mais como uma espécie de “aviso”. O quadro econômico internacional é de fragilidade. Aliás, aqueles que temem uma nova recessão econômica deveriam estar cada vez mais preocupados: a inclinação da curva de juros dos títulos dos EUA, utilizada como um previsor de crises, está no seu “pior” momento dos últimos anos. Dito de outra forma: a diferença entre os juros soberanos “curtos” e “longos” (3 meses e 10 anos, respectivamente) chegou a ficar mais de 30 pontos base negativos — o patamar mais baixo desde a última crise financeira. Uma inversão como esta fora vista sete vezes desde 1968. Em todas as ocasiões, precedeu uma recessão. Será diferente agora? Acertar o timing é, mais uma vez, extremamente relevante. Quando se quer saber para “onde” vão os mercados internacionais, apontar um único motivo e/ou culpado é muito pouco. Diria que é quase irrelevante. Afinal, a verdade é sempre mais complexa do que aparenta ser. O que importa é considerar o todo, o conjunto de dados, fatos e evidências.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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