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Tempos de polarização: uma realidade global

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O grau de polarização política parece ter aumentado nos últimos anos. Esta variável, que quantifica a divisão da opinião pública, tem chamado cada vez mais a atenção do grande público e acadêmicos. Aliás, também os investidores estão atentos a ela: diante de uma maior dificuldade para chegar a consensos, a aprovação de reformas econômicas torna-se muito mais difícil, por exemplo. Assim, a polarização política — que muitas vezes implica em governos populistas e/ou com visões extremistas — pode ter importantes consequências econômicas, tanto em países emergentes quanto em países desenvolvidos. Mas como medir tal polarização? Aliás, ela tem aumentado mundo afora? Quais são as evidências recentes, e o que esperar adiante?

A discussão é acalorada nos EUA. Parece bastante evidente que a polarização aumentou nos últimos anos, mas há quem ouse discordar. Isto chama a atenção para o cuidado que deve ser dado à análise das estatísticas. Num estudo publicado em 2008*, mostra-se que a distribuição das preferências da sociedade em distintas dimensões (econômicas, sociais, etc.) havia permanecido relativamente estável nos últimos 20 anos. A tal “polarização”, desde este ponto de vista, não teria aumentado. No entanto, um olhar mais atento e recente aponta numa outra direção. Segundo um estudo de 2016**, a correlação das preferências dos votantes com as dos partidos políticos que eles se identificam aumentou significativamente nos últimos 20 anos. Ou seja, se antes era razoavelmente fácil encontrar um republicano favorável à imigração, hoje isto é muito mais difícil. E um dado curioso: em 1960, a probabilidade de desaprovar o casamento do filho por conta da preferência política era praticamente nula; hoje, este número subiu para 20%.

Na Europa, a polarização política também é um um assunto importante, e tem trazido consequências econômicas. Mas também é preciso ter cuidado com as estatísticas. Se considerarmos dados de 2006 a 2016, segundo a European Social Survey (ESS), a distribuição das preferências do eleitorado não parece variar muito. Separar as pessoas num degrade que vai de extrema esquerda a extrema direita, no entanto, já não parece fazer muito sentido, e é algo que pode estar por trás destes resultados. Muitos acreditam que analisar o posicionamento da população frente a assuntos específicos pode fazer mais sentido. Se fizemos isto, o resultado é outro: não há dúvidas de que a sociedade está mais dividida. Um índice construído pelo Caixa Bank, um banco espanhol, utilizando os dados da ESS, mostra que o “desacordo” com relação a temas como imigração, aprovação do governo, confiança no Parlamento e integração europeia, por exemplo, tem crescido entre 2004 e 2016.

Na América Latina, democracias têm perdido forças, e governos com características populistas têm sido eleitos nos últimos anos. Segundo matéria da The Economist, o Brasil (com Jair Bolsonaro) e o México (com Andrés Manuel López Obrador) são exemplos disto. Em outubro, na Argentina, é possível que Cristina Kirchner volte à presidência, após governo de Mauricio Macri não ter conseguido resolver os problemas com a rapidez desejada. Ainda longe de situações como as de Venezuela, Nicaragua e e outros países da América Central, não são raros os casos na América Latina em que um eleitorado insatisfeito com a situação econômica se arrisca por uma opção “diferente”, às vezes com traços populistas e também visões extremistas. Não são tempos de moderação. Pelo contrário. O risco é o eleitorado perceber, tarde demais, que estas opções dificilmente resolverão os seus problemas.

A polarização é um fenômeno global. Segundo uma pesquisa da IPSOS, feita a nível global, a percepção das pessoas também corrobora o aumento da polarização. No mundo, 59% dos entrevistados disse acreditar que o seu país está mais dividido hoje do que há 10 anos. Nos EUA, este número é de 67%. Em países europeus como Espanha e Itália é de 77% e 73%, por exemplo. Claramente, é um fenômeno que foi se concretizando com o passar do tempo, e não é razoável pensar que ele será revertido no curto prazo. Pelo contrário. Fenômenos como a recente crise global (2007-2008) parecem relacionados a esta radicalização política, mas o já longo processo de globalização deixou a muitos insatisfeitos, mesmo antes da crise. Ou seja: o processo de polarização política está relacionado àquilo que acontece na economia, e parece ser um canal de mão-dupla. O livro “Global Inequality – A New Approach for the Age of Globalization”, do economista Branko Milanovic, por exemplo, mostra de forma clara, e com uma extensa base de dados, como o processo da globalização foi criando desigualdades em diversos países. Deixados para trás neste período, tornaram-se os insatisfeitos de hoje.

Em suma: a polarização política tem aumentado nos últimos anos, e não é difícil imaginar que ela vá continuar presente (e possa até aumentar ainda mais) no futuro próximo. Se por um lado pode ter tido o mérito de aumentar o interesse da população pela política, por outro, fez com que os consensos sejam mais difíceis de serem atingidos. No médio prazo, o desenvolvimento econômico sustentável e mais inclusivo é aquilo que tende a diminuir esta radicalização — algo que, a julgar pelas recentes projeções do FMI, por exemplo — é difícil vislumbrar. No curto prazo, portanto, os investidores continuarão a lidar com estas incertezas e riscos políticos difíceis de calcular. Estamos, infelizmente, em tempos de polarização: uma realidade global.

 

 

Referências:

* Fiorina Morris, P. and Abrams, J.S. (2008);

** Gentzkow, M. (2016).

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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