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Há tempos venho querendo trazer ao nosso blog um pouco mais sobre algumas discussões que envolvam tecnologia e investimentos.

No fim do ano passado, eu participei de um evento da gestora Verde em que um de seus gestores, Artur Wichmann, nos apresentou algumas conclusões e pensamentos inquietantes sobre como investir em um novo ambiente ditado por novas tecnologias, para que seja disruptivo.

Além da ótima apresentação, ele escreveu um excelente paper sobre o assunto. Tomei a liberdade de me basear neste paper e em algumas de suas principais conclusões para introduzir alguns tópicos e pequenas reflexões sobre tecnologia e investimentos, assuntos que com absoluta certeza pretendo abordar com mais detalhes e maior frequência em artigos futuros.

Comecemos entendendo um pouco mais sobre a palavra da moda: “disrupção”. No dicionário, disrupção nada mais é que: interrupção do curso normal de um processo. E o que essa palavrinha de significado claro e simples tem a ver com tecnologia?

Eu respondo.

A tecnologia tem nos levado a enxergar praticamente tudo de uma maneira diferente da que estávamos acostumados e de maneira extremamente rápida. Por isso, a impressão que nos dá de interrupção do curso, considerado “normal”, é que seja mais frequente para qualquer processo que seja impactado por ela.

Somado a isso, o fato de nosso cérebro estar evolutivamente programado para lidar com fenômenos que nos cercam de maneira linear, quando pensamos no futuro, por exemplo, é comum que extrapolemos linearmente tendências de hoje. Avanços tecnológicos podem apresentar pontos de inflexão rápidos e incomuns que podem nos surpreender.

E nos investimentos? O que a tecnologia tem tirado do curso normal? Lideranças, que até ontem eram vistas como inquestionáveis, estão mais vulneráveis e perdem mercado a cada dia; barreiras à entrada antes consideradas impenetráveis, agora não se sustentam por tanto tempo assim; isso para citar somente alguns exemplos.

E o que isso significa para você? Bem, mesmo aquele investidor mais cético, que nunca investiu um centavo sequer diretamente em ações de tecnologia, passa a estar suscetível a um risco tecnológico considerável em seu portfólio.

Explicarei alguns pontos importantes que farão você, leitor, entender como a tecnologia pode impactar seus investimentos a partir de vários pontos de vista.

UMA NOVA MANEIRA DE CRIAR RIQUEZA

Entenda que está em curso uma mudança drástica no padrão de criação de riqueza.

Antigamente, as maiores empresas do mundo, aquelas que melhor remuneravam o investidor, geravam valor ao acionista e se valorizavam no longo prazo, possuíam uma característica comum: eram intensivas em capital. Ferrovias, petroleiras, mineradoras, indústria automobilística, etc, que exigem investimentos altíssimos para uma produção em larga escala.

Mas, se observarmos mais atentamente os maiores valores de mercado da atualidade, por exemplo, as cinco maiores empresas do S&P500: Apple, Microsoft, Amazon, Facebook e Berkshire Hathaway, veremos que os investidores de hoje remuneram muito mais empresas de “capital intelectual” intensivo, não capital físico.

RÁPIDOS CUSTOS DECRESCENTES DE TECNOLOGIA

Um dos motivos para entender a natureza exponencial da adoção das novas tecnologias reside no fato de que os custos de execução de processos mais tecnológicos em diversos setores estão caindo drasticamente para padrões históricos.

Se observarmos outras tecnologias, que um dia também foram consideradas disruptivas como telefonia e frete ferroviário, estes custos demoravam décadas para decair.

Esta queda acelerada dos custos de implantação de tecnologia é baseada nas premissas da Lei de Moore.

CUSTOS DE TRANSAÇÃO E BARREIRAS À ENTRADA

Como os custos de execução de processos tecnológicos são drasticamente decrescentes, podemos concluir, sem perder muito sentido, que seus custos de transação também decrescem.

Uma empresa é um conjunto de indivíduos que conseguem de maneira mais eficiente se organizar para minimizar custos de transação, que nada mais é que o custo incorrido de se adquirir uma informação e executar uma tarefa.

Empresas que conseguem manter menores custos de transação, impõem barreiras à entrada de seus concorrentes. Dado que implantar novas tecnologias diminuem bastante os custos de transação, podemos afirmar com absoluta certeza que estas se comportam como destruidoras de barreiras à entrada.

Monopólios e oligopólios, antes tidos como inabaláveis, passaram a sofrer do dia para noite com um aumento de concorrência nunca antes visto e agora passam por sérios questionamentos. Exemplo Ubers x Táxis, Airbnb x Hotéis, etc.

UMA NOVA MANEIRA DE SE INVESTIR

As conclusões que chegamos até aqui, nos levam a pensar em alguns ajustes importantes em nossas decisões de investimento.

Uma das mais tradicionais maneiras de se investir, o value investing, método que defende a ideia de procurar negócios para se investir com barreiras à entrada elevadas, parece estar sendo questionado neste novo ambiente de destruição de barreiras.

Longe de nós querermos dizer que esta estratégia está morta ou ultrapassada, mas uma nova postura deve ser adotada por um investidor antes de adotar tal estratégia neste novo ambiente.

Com o avanço tecnológico passa a ser importante pensar bem sobre a natureza e solidez daquilo que é considerado como barreira à entrada e se isso já se reflete no preço da empresa pretendida. Entenda: a sólida barreira de hoje pode estar bem frágil amanhã.

BENS DIGITAIS

Outra novidade advinda de uma indústria intensiva em capital intelectual é a insurgência dos chamados “bens digitais”.

Bens digitais são definidos também por serem “não exaustivos”, isso significa que um software que consumo neste minuto para redigir este artigo, é o mesmo que você está consumindo e outras milhares de pessoas também. Tudo ao mesmo tempo.

Pense agora em um bem físico qualquer, como uma roupa. É impossível dissociar deste bem sua característica de exaustão e exclusividade.

Além disso, este tipo de bem possui efeitos positivos de rede, que faz com que quanto mais ele for difundido, maior sua utilização e melhor ele fica.

No mundo tecnológico, é comum, pelas características dos bens digitais, a formação de oligopólios “naturais”, exemplos: Facebook, Google e Microsoft, no entanto, como falamos anteriormente, pela própria dinâmica do setor, o tempo de duração deste domínio é incerto.

Esta instabilidade no longo prazo, talvez seja um dos maiores riscos do setor, no entanto, a fim de mitigar estes riscos, estes mesmos oligopólios de hoje investem intensamente em venture capital, a fim de sempre incorporar novas tecnologias aos seus negócios e manter sua liderança.

REGULAÇÃO

O setor de tecnologia passou, durante um bom tempo, relativamente imune a riscos regulatórios, principalmente regulações que limitassem a competição. O resultado disso é uma forte contribuição a todas características já apontadas neste artigo.

Com CEOs visionários, que possuem fama maior que muitos popstars, líderes cada vez mais bilionários, produtos cada vez mais inovadores e que trazem consigo uma legião de geeks (fãs incondicionais de suas marcas), o setor era percebido com simpatia pelo governo ou simplesmente o assunto é tão novo, que o Estado não possui conhecimento suficiente para regular determinados produtos e serviços. Quando o faz, é em uma velocidade linear e não exponencial.

Talvez o risco mais iminente ao sucesso dos investimentos tecnológicos no futuro será justamente como se dará a regulação efetiva do setor.

Dada o alto nível de penetração deste setor em diversos aspectos de nossas vidas pessoais, talvez o ativo mais valioso da maioria das empresas que compõem o setor seja justamente as informações pessoais de seus usuários.

Acredito que o ambiente regulatório mais hostil se baseará na possibilidade de regular como e com qual propósito estas informações são utilizadas.

O evento recente envolvendo a utilização de dados pessoais por parte do Facebook reforça este ponto de vista.

A RELEVÂNCIA DA MARCA NA TECNOLOGIA

A tecnologia também está mudando a forma como nos relacionamos com os produtos de consumo.

Antes era crucial para o processo de venda o consumidor ir até a loja, ver presencialmente o produto antes de comprar, analisar o que estava disponível e assim fazer uma compra.

Hoje procuramos cada vez mais por produtos online. E isso modifica totalmente o processo old school, pois, o resultado da busca por um produto na internet é determinado pelos algoritmos de busca dos marketplaces, plataformas de comparação de preços e dos sites de busca. O que influencia drasticamente nossa decisão no ato da compra.

Este novo ambiente modifica a relação entre consumidor e marca, pois existem novos parâmetros que afetam o reconhecimento do que é uma boa marca.

De certa forma, está mais barato para que as marcas, antes desconhecidas por conta de barreiras à entrada, passem a ser referência entre uma nova massa de consumidores, ameaçando líderes de mercado tido como favoritos por muitos anos.

Pense no comércio de roupas e cosméticos, alguns bons exemplos virão à sua mente.

CONCLUSÕES

Assim como no paper original, esta versão espera ter aberto um pouco seus olhos a estas novas tendências quando relacionamos novas tecnologias e investimentos. Por isso, sugiro que guardem em mente alguns pontos relevantes aqui abordados:

  • A mudança tecnológica acelera de forma exponencial e, consequentemente, o padrão de criação de riqueza é modificado também de maneira bem rápida;
  • Tecnologia destrói barreiras à entrada;
  • Dito isso, avalie detalhadamente o que é considerado barreira à entrada de um setor antes de investir nele;
  • A disrupção é imponderável e irá acontecer. Resta saber se a empresa investida irá propor a disrupção em seu segmento ou se a mesma será feita por terceiros;
  • Todos possuímos riscos tecnológicos em nossos portfólios, mesmo que não saibamos;
  • Neste ambiente dinâmico, evitar perdedores é tão ou mais importante do que identificar ganhadores.
Hugo Paixão Hugo Paixão

Analista de Research e Alocação

Bacharel em economia pela Universidade de Brasília e Planejador Financeiro CFP® certificado pela Planejar (Associação Brasileira de Planejadores Financeiros), atua há seis anos no mercado financeiro com passagens por instituições como Banco Modal e JGP Asset Management. Atualmente é analista de alocação da equipe técnica da Guide Investimentos.

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