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Sem mudar, o cenário econômico está mudando

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O FMI projeta um crescimento global de 3,9% para este e o próximo ano, em linha com os números já previstos em abril. Ou seja: de lá pra cá, as coisas não parecem ter mudado muito. Mas mudaram. O crescimento já não é tão sincronizado como antes, e os riscos estão aumentando. Aqui, descrevo alguns pontos do recém-divulgado update do FMI: “Expansão menos uniforme; aumento das tensões comerciais”. O que está acontecendo com o cenário econômico?

Começo pelos riscos. Aqui, destacam-se as políticas protecionistas de Trump , que fecharão ainda mais os EUA ao comércio global. As potenciais retaliações dos demais países também são motivo de preocupação. O impacto negativo disto tudo? Não só pela via direta (menor fluxo comercial, distorções produtivas, etc.), mas pela indireta, através do aumento das incertezas, que paralisa investimentos. Isto pode aumentar ainda mais a volatilidade dos mercados, é claro. Em 2018, esta já sobe 15%, considerando o índice VIX. Em 2017, a volatilidade havia recuado 24%.

Mais sobre a “guerra comercial”: a partir do último dia 6 de julho, os EUA começarem a implementar tarifas de 25% a US$34 bilhões em produtos chineses. Esta foi a “1ª rodada” de restrições. Virá uma 2ª, que incidirá sobre US$16 bilhões. Embora Trump acredite que isto beneficiará aos americanos, criam-se distorções produtivas. Um exemplo claro: a Harley-Davidson, por conta destas tarifas, decidiu levar parte de sua produção para fora dos EUA. Estas medidas prejudicarão não só à China, mas também a outros tantos países (que contribuem em diferentes estágios da sua produção).

O cenário econômico

Não mudou, mas mudou? Mesmo com a estabilidade da projeção de 3,9%, vale pontuar alguns pontos do relatório do FMI. Os EUA estão entre os destaques positivos, cada vez mais aquecidos, num momento de curto prazo favorável (que ainda reflete os cortes de impostos). Isto, diga-se de passagem, tem feito o dólar se valorizar nas últimas semanas (especialmente frente às moedas de emergentes). O viés da inflação por lá é de alta, e os juros devem continuar a subir. Mas atenção: se subirem mais do que hoje se espera, os juros mais altos nos EUA passam a ser um risco para os mercados. Há uma “dose” certa do medicamento.

Em outras economias avançadas, como Zona do Euro, Japão e Reino Unido, as projeções de crescimento foram revisadas para baixo. Ou seja: vimos, nos últimos meses, uma divergência entre estas economias e a dos EUA, por exemplo. Dentre os emergentes, há diferenciações claras: enquanto as perspectivas para os países exportadores de petróleo melhoraram; as projeções de crescimento de Argentina, Brasil e Índia foram rebaixadas. Vale registrar: desde a elaboração do último relatório do FMI até aqui – ou seja, de fevereiro até o início de junho –, o barril do petróleo acumulou uma alta expressiva de 16%.

E agora? Como “recomendação”, o FMI sugere soluções cooperativas, que promovam o comércio de bens e serviços – algo essencial para manter a expansão global. Vale o paralelo: segundo dados do Banco Mundial, o comércio, como proporção do PIB, representa hoje 56,2% do PIB global. Já deixou a máxima histórica, de 60,9%, atingida em 2008. Considerando esta métrica, os EUA estão tão “fechados” quanto o Brasil. A Alemanha, num outro extremo, é muito mais aberta ao comércio global.

 

 

Para ter condições de combater futuras crises, recomenda-se que os países criem “colchões fiscais” que possam ser usados em períodos menos favoráveis. Ou seja: reconstruir a capacidade de fazer política fiscal contra-cíclica. Isto se aplica aos emergentes, que tiveram na última década um aumento expressivo do seu endividamento. Mas também aos EUA, que hoje, sem precisar, usam este tipo de política para aquecer ainda mais a sua economia. Atenção ao cenário que, mesmo sem mudar, está mudando.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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