Santa Claus nos trouxe um urso de presente

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À primeira vista, a economia dos EUA vai bem, e não há nada de fundamentalmente errado com ela. O desemprego está próximo das mínimas históricas, a inflação sob controle e as empresas ainda mostram boas margens de lucro. No entanto, o mercado acionário — que costuma ser uma espécie de termômetro daquilo que está por vir — entrou no chamado “Bear Market” na última sessão antes do Natal. Dito de outra forma: sem qualquer tipo de “rali de Santa Claus“, o índice S&P 500 acumula queda de mais de 20% desde o seu pico intraday mais recente, o suficiente para dizermos que o mercado está “em baixa”. Como entender o que está acontecendo?

Encontrar uma única e convincente narrativa para aquilo que estamos vendo nos mercados internacionais não é tarefa fácil. Talvez não haja como contar uma boa história no momento. Mas há, sim, motivos para pensarmos que algo não está bem neste quebra-cabeça. É importante destacar que os principais índices acionários nos EUA — tanto o S&P 500 quanto o Dow Jones — têm tido um dos piores meses de dezembro dos últimos tempos. Isto, apesar de duas “boas notícias”: (1) a suposta “trégua” comercial entre EUA e China, e (2) um banco central (BC) americano que sinaliza uma elevação mais gradual das taxas de juros. Não adiantou. O “mercado”, de alguma forma, segue preocupado, dando sinais de alerta.

O último grande evento “macro” de 2018 foi a reunião do BC americano, nos dias 18 e 19. É um exemplo recente sobre como os mercados, diante de um fato que a princípio poderia ter sido considerado positivo, encontraram uma “desculpa” para voltar a recuar. Os juros americanos voltaram a subir. Após a quarta elevação em 2018, agora estão entre 2,25-2,50% ao ano. Não foi um aumento consensual, e muitos economistas acreditavam que o melhor seria manter os juros estáveis. Mesmo desagradando a muitos (incluindo o próprio Donald Trump!), a mensagem que o presidente do BC, Jay Powell, tentava passar para os investidores era, em tese, mais “amena”. À frente, sinalizou que os juros devem subir menos do que se imaginava nos últimos meses.

Os membros do BC americano esperam agora apenas 2 elevações de juros em 2019, e não mais 3. Se isto acontecer, os juros terminarão 2019 entre 2,75-3,00% ao ano. Powell ainda explicitou que os juros já estão dentro do intervalo considerado como “neutro”, deixando para trás uma fase longa de juros extremamente baixos que serviram para estimular a economia no pós-crise. Embora possa parecer um detalhe, estas sinalizações são de um teor importante: a normalização de juros, que começou no final de 2015, já estaria quase concluída. Se juros mais altos costumam ser algo negativo para as bolsas, juros que subirão menos à frete deveriam ter sido um motivo para comemorar. Mas isto não aconteceu. Afinal, qual foi o mais recente motivo de preocupação dos investidores?

A (boa) mensagem de Powell quanto às taxas de juros foi ofuscada pelas observações que fez quanto ao chamado “quantitative tightening” (QT) — a diminuição do balanço de ativos do BC. Vale lembrar que isto ocorre após anos de compras de títulos que “incharam” o balanço da instituição, que passou de aproximados 800 bilhões de dólares antes da crise para um nível superior aos 4 trilhões depois da tentativa animar a economia. Este processo ficou conhecido como “quantitative easing” (QE). Quando questionado por jornalistas, Powell afirmou que o QT, atualmente em curso, continuará em “piloto automático”. Embora fosse evidente que após o QE viria o QT, a naturalidade com a qual Powell se referiu a este último processo deixou nítida a diferença com a qual o BC e o mercado enxergam o momento atual da economia. Estamos diante de duas visões conflitantes. Para o BC, as coisas estão indo bem. Para os mercados, nem tanto.

Para 2019, tudo indica que o BC dos EUA continuará contribuindo para a menor liquidez nos mercados. Seja com juros ligeiramente mais altos, ou seja via a redução do seu balanço de ativos, não virá daí um impulso para as bolsas internacionais. Muito pelo contrário. Ao mesmo tempo, após anos de “Bull Market“, o recente recuo das bolsas parece ser um claro sinal de que algo não está bem. Neste momento, o BC americano parece ignorar estes sinais. Mais cedo ou mais tarde, é possível que o BC americano precise reconsiderar a sua abordagem.  Santa Claus não nos trouxe um rali de final de ano, mas nos trouxe um urso. Seria ingênuo ignora-lo e fingir que nada disto existe. Qual será a mensagem de Powell na próxima reunião do BC, dias 29 e 30 de janeiro, considerando que os mercados podem continuar apontando para mais turbulências à frente?

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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