Risco: Você quer ativos de alto retorno esperado? Cuidado

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Segundo matéria desta semana do Financial Times, gestores de fundos “estão mostrando cautela olhando para 2019, reduzindo sua exposição às ações, apesar das avaliações de que estas estariam mais baratas […] e fortes dados econômicos dos EUA”. O clima de preocupação tem sido uma constante nos últimos meses, e há poucas certezas sobre aquilo que pode vir em 2019. É razoável, no entanto, esperar um período mais desafiador adiante. Acabamos de “comemorar” os 10 anos da última crise financeira, mas não faltam investidores preocupados com a chegada da próxima crise. Como é que o investidor deveria se posicionar diante deste cenário de incertezas?

O conceito de “risco” é importante. Diante de uma infinidade de riscos — alguns deles “sistemáticos”, mas outros tantos “idiossincráticos” —, há estratégias que ajudam a atenua-los. As vantagens da diversificação de ativos implica que nós não devemos considerar os ativos de forma isolada; e precisamos pensar em como os ativos se comportam em conjunto. Embora pareça algo simples, esta ideia rendeu a Harry Markowitz o premio Nobel de Economia de 1990. Matematicamente, os benefícios da diversificação são medidos por covariâncias a correlações. Se antes de Markowitz investidores pensavam no “risco” dos ativos como se fosse algo “individual” e particular a cada um; hoje, investidores deveriam se fazer a seguinte pergunta: “como é que a inclusão deste ativo afeta o risco da minha carteira?”.

Não acredite em super-heróis.

Dada a complexidade do cenário internacional, é difícil imaginar que alguém terá a capacidade de encontrar, de forma sistemática, bons investimentos, ainda não vistos pelos demais investidores. Ex-ante, ajustado pelo chamado risco-retorno, a premissa é que achar um “bom” investimento é bastante difícil; somente alguns poucos iluminados teriam esta capacidade. Usando o jargão, obter “alpha”, de forma consistente, é para poucos. Neste contexto, a teoria diz que faria sentido o investidor montar duas carteiras, apenas. A primeira, com ativos “arriscados” (aqui,  por exemplo, incluir uma composição de bolsas internacionais, commodities, fundos, etc.). A segunda, com ativos “seguros”, sem risco (títulos do governo, entre outros). Somente agora é que deveriam entrar as preferências de cada investidor: a depender do grau de aversão a risco, o problema de encontrar uma carteira ótima — que era extremamente complexo, ficou mais “simples” — se restringe a atribuir um peso a cada uma destas duas carteiras.

Manter o patrimônio é uma escolha.

Um paper de 2004 do banco JP Morgan, por exemplo, identificou a concentração excessiva de patrimônio como a principal razão para a perda de fortunas por parte dos mais ricos. Menos de 15% dos 100 mais ricos que a Forbes compilou na primeira vez do levantamento se mantinham na lista uma geração depois. De forma análoga, outro trabalho aponta que 1/3 dos americanos que estavam em 2007 no grupo dos 1% mais ricos do país havia deixado este seleto grupo 2 anos depois. Acredite: incorrer no erro de não diversificar não é um erro de “principiante”. Aliás, é mais comum do que se imagina, e até investidores institucionais já cometeram este erro. Exemplos não faltam.

De tempos em tempos, revise a estratégia

De volta ao tema “crise” — e por falar nos anos de 2007, 2008 e 2009 —, qual foi o desempenho das diferentes classes de ativos neste período? Na tabela a seguir, perceba que se tivéssemos dividido o patrimônio entre ações de pequenas empresas americanas e empresas internacionais não teria adiantado muito em termos de performance. Nem se tivéssemos dividido o nosso portfolio entre ações de países emergentes e os chamados “Hedge Funds”, tradicionalmente vistos como imunes a grandes “choques”. Os únicos que tiveram bom desempenho foram os títulos do governo, e ativos similares. A importante mensagem é que as correlações entre os ativos mudam com o tempo. Aliás, em tempos de crise, a correlação entre ativos de risco aumenta; e os benefícios da diversificação diminuem. Isto não quer dizer que devemos esquecer dela, mas implica na necessidade de rever a composição da carteira, de tempos em tempos. Por trás de todas as classes de ativos, é preciso lembrar: há um grande risco sistemático, chamado de “mercado”, que não conseguimos ignorar.

 

Diante de um cenário de incertezas, e de difícil ponderação de eventos políticos e econômicos, o investidor deveria pensar no risco dos ativos de sua carteira de uma forma “conjunta”. Deveria importar pouco o risco individual de cada ativo (a sua variância histórica, por exemplo). O que importa é como ele varia em relação ao restante da nossa carteira (a sua covariância!). Aliás, por si só, lembre que um ativo com um retorno esperado alto não é algo “bom”. Ele apenas reflete o fato de o ativo ser mais “arriscado”: irá muito bem quando o restante  do mercado for bem; e muito mal quando o mercado for mal. Ou seja: em tempos de crise, não ajudará a suavizar o seu consumo.

Se à frente vemos um período mais turbulento, e desconfiamos que outros investidores profissionais também estão receosos, a teoria recomenda ter ativos em carteira que variem menos/pouco com o mercado como um todo. No limite, ativos que independente do “estado da natureza” — faça sol ou faça chuva — renderão a mesma coisa. Como não há almoço grátis, estes ativos serão, precisamente, aqueles de retorno esperado mais baixo. Em tempos de crise, todos se lembrarão deles (e os números de 2008 são prova disto).

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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