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Questione-se: você pode estar errando em seus investimentos?

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Ter a sensação de que a sua escolha está errada não implica, necessariamente, em saber como consertá-la. Quando se trata do assunto “investimentos pessoais”, é muito provável que você já tenha experimentado a sensação de estar fazendo algo errado. No mínimo, todos nós, em algum momento, estivemos em meio a uma situação de incertezas, sem saber em qual ativo investir e como alocar os nossos recursos de uma forma ótima. Erros no curto prazo frequentemente geram perdas no longo prazo. É curioso que uma série de erros são cometidos nestes momentos, independente da experiência do investidor e do seu nível de educação. Neste artigo, retomo o assunto de “finanças pessoais” utilizando os “fundos de investimento”, dando ênfase a um estudo escrito em 2009 pelos economistas Choi, Laibson e Madrian, das Universidades de Yale e Harvard. Você se questiona antes de decidir em qual ativo investir?

Há poucas evidências na literatura econômica de que fundos de investimentos com taxas muito elevadas conseguem, no final do dia, rendimentos suficientes para remunerar o investidor pelo risco que estão correndo (artigos interessantes sobre o tema incluem Barras et al. (2010) e Carhart (1997), por exemplo). Já falei aqui um pouco mais sobre a indústria de fundos nos EUA, chamando a atenção para alguns pontos que deveríamos considerar antes de investir nesta classe de ativos. Em especial, destaquei a importância das taxas de administração. O que chama ainda mais a atenção é que, a despeito da maior concorrência na indústria, fundos com taxas elevadas ainda não desapareceram do mercado. Ou seja: eles costumam não remunerar o investidor como deveriam, mas há quem continue investindo nestes ativos. Como explicar este comportamento? Qual é o raciocínio destes investidores? O que eles estão olhando? Ou melhor: há algo que os atrapalha e os induzem à decisão errada?

Os economistas Choi, Laibson e Madrian chamam a atenção para este puzzle – o fato de investidores não penalizarem os fundos com taxas de administração elevadas ao longo do tempo, e investirem de forma não-ótima. É instigante notar que, independente das características dos fundos que analisamos, há uma dispersão grande de taxas cobradas. Ou seja: há fundos com taxas baixas e há fundos com taxas altas. Investidores, no entanto, muitas vezes optam por aqueles com taxas altas, mesmo quando o ótimo seria buscar aqueles com taxas menores. Se considerarmos que não há ganhos ou serviços não-financeiros decorrentes da decisão do investidor (ou seja, o investidor não está tendo outro “ganhos” de nenhuma natureza além dos rendimentos do fundo), torna-se ainda mais surpreendente o fato de os investidores não optarem pelos fundos com taxas menores quando se trata dos chamados “fundos indexados” – uma classe de fundos que tem como objetivo principal seguir um determinado índice de ações, e não depende da habilidade dos gestores profissionais. No Brasil, o fundo indexado pode ter como objetivo seguir o rendimento do Ibovespa. Nos EUA, seguir o índice S&P 500, por exemplo. Sendo uma espécie de “commodity” (a “qualidade” do produto é fixa e somente o “preço” é o que importa), é evidente que, neste contexto, escolher um fundo com taxa mais alta é claramente uma decisão errada, e não deveríamos nem olhar para o histórico dos retornos, dado que estes não deveriam se desviar do índice que estão seguindo. Os economistas Choi, Laibson e Madrian exploram este contexto. Há investidores que erram? O que os faz errar?

Os três economistas entrevistaram 730 investidores e pediram que estes alocassem 10 mil dólares entre 4 fundos indexados ao índice S&P 500. Tais investidores pertenciam a algum dos três grupos: (1) funcionários/staff de Harvard; (2) alunos de MBA de Wharton; ou (3) estudantes de graduação de Harvard. A remuneração de cada um no experimento viria dos ganhos que o seu portfolio tivesse num determinado período. Embora todos possam ser considerados “bem-educados”, e um prospecto de informações dos fundos tenha sido fornecido a eles, a maioria falhou ao fazer suas escolhas: pouquíssimos decidiram alocar os 10 mil no fundo com as menores taxas. Em média, os grupos (1), (2) e (3) pagaram 201, 112 e 122 pontos base a mais do que deveriam, respectivamente. Afinal, a maioria colocou alguma importância no histórico dos retornos desde a criação do fundo – informação do prospecto que fazia pouco sentido olhar num contexto de “fundos indexados ao S&P 500”, e ainda mais se considerarmos que cada fundo tinha uma data de início distinta. Considerando os resultados, “erraram” mais os investidores do grupo (1), investidores tipicamente mais velhos que os demais, com mais experiência quando o assunto é “finanças pessoais”, porém, mais propensos a reproduzir erros sem pensar com cuidado em suas decisões. Na outra ponta, estão os investidores do grupo (2), tipicamente mais novos que o grupo (1), e possivelmente menos experientes em manejar as suas próprias finanças. Mas, mais velhos que o grupo (3), estes deram menor importância aos retornos do que os do (3).

Tentando entender mais sobre o viés dos investidores, todos foram confrontados com uma segunda parte do experimento de Choi, Laibson e Madrian. Foram divididos em 3 grupos, e foi dado a eles alguma informação adicional sobre os fundos, além do “prospecto” inicial: (i) uma folha com as taxas do fundo explicadas; (ii) uma folha com uma explicação detalhada sobre o que são “fundos indexados”, ou (iii) uma folha adicional dando destaque aos retornos dos fundos. O resultado? Alguma melhora nas decisões quando estes recebiam as informações adicionais (i) ou (ii), mas nada significativo. Quando estes recebem a informação (i), por exemplo, 90% dos investidores do grupo (1) e (3) e 81% do grupo (2) ainda tomavam as decisões erradas. Além disso, houve uma piora dos investidores do grupo (3) quando estes recebiam a informação (iii), por exemplo. Os do grupo (1) não se mostraram afetados pela informação adicional (iii), mas tudo indica que estes já haviam decidido dar importância aos retornos históricos num primeiro momento. O curioso é que os investidores, mesmo tendo tomando as decisões erradas, muitas vezes tinham uma espécie de insegurança e sensação de estarem errando em suas escolhas. Isto, no entanto, não os impediu de errarem, nem lhes foi suficiente para saber como acertar. Tarde demais.

A conclusão é que a educação financeira é extremamente importante, e não se restringe a grupos “pouco educados” da população. O estudo dos economistas Choi, Laibson e Madrian é prova disto, e enfatiza que os fundos com taxas altas podem continuar existindo mesmo dentro de uma classe como a dos “fundos indexados”, que deveriam ser vistos como uma “commodity”, sem motivos para querermos remunerar o gestor por um trabalho diferenciado. É plausível imaginar que, em outras classes de fundos, que envolvem produtos com gestão mais ativa, os erros dos investidores sejam ainda maiores. Não acredite que “se o produto fosse ruim ninguém investiria nele”. Mais: um viés ou decisões automáticas – especialmente entre os investidores que se consideram mais “experientes” – tendem a intensificar os erros. Finalmente, vale notar que fornecer mais informações sobre os produtos financeiros muitas vezes pode piorar a tomada de decisão do investidor final, induzindo-o ao erro, como mostra o artigo dos economistas de Yale e Harvard. Como conselho final, lembre-se: questione-se e, sempre que possível, conte com a ajuda de especialistas.

Referência: Choi, Laibson e Madrian (2009), “Why Does the Law of One Price Fail? An Experiment on Index Mutual Funds”.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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