Quem critica o governo não está contra ele

Apesar do título óbvio, sentimos a necessidade de discorrer um pouco mais sobre esse assunto, tendo em vista o grande número de críticas que o governo tem recebido na grande mídia e em outros meios de comunicação: na pasta da educação com as polêmicas constantes do Ministro Weintraub, passando por medidas questionáveis da Ministra Damares, do morde-assopra com o Ministro Moro e das recentes declarações polêmicas do Ministro Guedes. Quase nada passa despercebido pela sociedade, que repercute quase que instantaneamente o fato ocorrido poucos minutos após ter ocorrido; afinal, basta lembrarmos do fatídico caso do secretário Alvim e de seu tenebroso vídeo.

Costumeiramente esses indivíduos públicos reclamam da cobertura “viesada” de parte da imprensa a respeito do seu trabalho. Inclusive, essa crítica à atuação da imprensa é reverberada e ganha corpo com o chefe, Jair Bolsonaro. Essa reclamação estaria fundamentada pelo fato que agora a mídia se interessa muito mais pelas pataquadas do governo atual do que dos erros das administrações anteriores. Será verdade?

Se olharmos em retrospectiva, essa ideia cai por terra rapidamente. Os primeiros indícios de que havia pagamentos mensais ilícitos ocorrendo em Brasília para influenciar votações no plenário, posteriormente denominado Mensalão, foram divulgados pela Revista Veja e pelo Jornal Folha de São Paulo, ambos extremamente criticados pelo governo atual, em tese de espectro político oposto ao de Lula/Dilma. As investigações que levaram à prisão do ex-presidente Temer tiveram início em reportagem do Estadão, que mostrava a corrupção na Eletronuclear.

Agora, essas mesmas revistas e jornais são vistos pelo governo atual como inimigos da nação, seguindo a mesma opinião do todo poderoso presidente americano Donald Trump, que declarou fato semelhante pouco tempo atrás. Foram esses canais que repercutiram rapidamente as suspeitas envolvendo um dos filhos do presidente, ou o caso de laranjas no ex-partido de Bolsonaro e mais atualmente ideias retrógradas propagadas pelo Ministro Guedes. Sobre esse último assunto, parecia proibido criticar a fala do Ministro da Economia, pois fazendo isso “parece que está jogando contra” ou “onde está ganhando não se mexe”.

Nada mais incorreto, pois é do dissenso que surgem as grandes iniciativas e projetos. A moeda nacional desvalorizada traz sim benefícios para o exportador e para o turismo nacional, como mencionou Paulo Guedes, mas também ocasiona subida de preços de importados e perda do poder de compra da população, parte omitida pelo Ministro. Ademais, há uma série de estudos que mostram que câmbio desvalorizado causa efeitos apenas no curto-prazo, e não deve ser utilizado como política pública para o desenvolvimento econômico. Nesse sentido, é dever informar à sociedade sobre os dois lados da moeda, mesmo que para isso esteja implícita uma crítica – construtiva, nesse caso – à atuação do governo e seus representantes.

Isso quer dizer que não existe mídia viesada e com interesses particulares se sobrepondo ao interesse público? Obviamente que não. Há sim canais de mídia que trabalham com o cenário do “quanto pior, melhor”, mas, convenhamos, é bem fácil distingui-los no mundaréu de opções que temos hoje para se informar.  Os canais sérios devem estar preparados para elogiar quando merecido e criticar quando necessário. Não faz sentido algum e não é nada recomendável termos uma imprensa que abaixa a cabeça e diz amém para tudo que o governo faz.

Como afirmou o economista Marcos Lisboa, “a Imprensa precisa ser livre até para errar”. Embora aparentemente controversa, essa ideia mostra que, na média, a atuação próxima da imprensa e dos canais de comunicação traz mais benefícios do que malefícios para a sociedade, fortalecendo a democracia.

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