Qual é o plano, Jair? Crescimento, reformas e sociedade

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Jair Bolsonaro será o novo presidente do Brasil. A campanha eleitoral terminou e, com isso, as promessas que não acabavam mais. Agora, torna-se importante entender o plano que ele e a sua equipe econômica irão adotar. Quais reformas são necessárias? Quais são as que tem maior potencial de melhorar a produtividade da economia? Mais do que isso: quais são mais viáveis, em termos de apoio da sociedade?

Um estudo do FMI, publicado no início de outubro, tenta responder a estas perguntas. Antes disso, vale fazer um comparativo: nas últimas décadas, o Brasil cresceu muito menos do que os seus pares. Desde 1980, o PIB real cresceu, em média, meros 2,6% ao ano. O gráfico a seguir mostra como fomos “ficando para trás”, com o passar do tempo. A razão disto? Uma produtividade estagnada. Simples assim. Aliás, a depender dos cálculos empregados para medi-lá, há quem diga que a produtividade do país é menor do que a do início da década de 1980.

Qual o impacto das reformas na produtividade?

O FMI considerou uma base de dados de 86 países (emergentes e desenvolvidos), entre os anos de 1970 e 2011. Foram testadas 5 reformas: (1) bancária, (2) trabalhista, (3) legal, (4) competição & ambiente corporativo e (5) abertura comercial. O resultado? Todas, em linha com o esperado, contribuem para o aumento da produtividade da economia. No entanto, considerando a defasagem do Brasil em relação aos países desenvolvidos, a reforma bancária parece ser aquela com o maior potencial de melhora.

Quanto à reforma bancária, o FMI destacou a relevante interferência estatal na alocação do crédito, além da ainda maciça presença de grandes bancos públicos, é claro. O gráfico anterior mostra que poderíamos ter um crescimento na produtividade de quase 1,2% (considerando o seu efeito em até 1 ano após feita a reforma). Na sequencia, estima-se que o impacto da reforma trabalhista também seja bastante relevante. Este número, embora significativo, não considera as modificações feitas recentemente durante o governo Temer. Ou seja, tal estimativa superestima o efeito de novas modificações e não considera o menor espaço para ajustes daqui em diante. Também vale mencionar que as reformas relativas à competição entre empresas e à abertura comercial — as 2 últimas reformas em termos de efeitos — costumam ter um impacto maior em prazos mais longos.

Mas qual o apoio para as reformas?

Considerando diferentes bases de dados, o FMI encontra que 31% apoia reformas no sistema bancário e na competição & ambiente corporativo. Além disso, 26% apoia reformas no sistema legal; 23% na abertura comercial e 15% nas reformas trabalhistas. Ou seja, com isto em mãos, podemos fazer uma análise conjunta, levando em consideração apoio da população e impacto sobre produtividade. A seguir, um quadro que resume os resultados do estudo.

Em suma: o próximo governo terá uma difícil tarefa pela frente, e diversas reformas são necessárias para acelerar o crescimento brasileiro vis-a-vis o resto do mundo. Não é uma novidade que estamos “atrasados” no quesito crescimento. A questão é: qual caminho seguir neste momento? É exatamente isto que os investidores continuarão a monitorar nos próximos meses. Por enquanto, estamos numa fase “lua de mel”. Qual será o plano?

Referência: “Structural Reform Priorities for Brasil“, FMI (October, 2018).

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista-chefe da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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