Qual é o futuro dos mercados acionários emergentes?

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Os mercados emergentes representam dois terços do crescimento do PIB mundial, detêm 85% da população e têm 24 das 30 maiores cidades do planeta. São, portanto, muito relevantes do ponto de vista econômico. Segundo o FMI, mercados emergentes e em desenvolvimento crescerão 4.4% em 2019, e 4.8% em 2020. Isto é mais do que o dobro dos países avançados, que devem crescer 1.8% e 1.7%, respectivamente. Mais: é exatamente deste grupo de países que se espera a recuperação econômica global a partir do ano que vem. Apesar de tudo isto, as empresas globais não parecem muito animadas com os emergentes. Quais os motivos? Muitas empresas “emergentes” decidem listar suas ações nas bolsas de “desenvolvidos”: mas e o contrário?

Apesar de diversas estatísticas mostrarem a importância dos mercados emergentes — e de serem considerados estratégicos por muitas empresas cujas sedes estão nos chamados “desenvolvidos”, por exemplo —, ainda chama a atenção o pequeno avanço que estes países têm feito nos últimos anos quando o assunto é “mercado acionário”. De acordo com os cálculos de Elroy Dimson, Paul Marsh e Mike Staunton, pesquisadores da London Business School, este grupo de países representa meros 12.4% do mercado acionário global. Esta cifra está estagnada desde 2007. Investir em empresas de emergentes ainda é considerado um investimento “alternativo”, e a intenção de listrar ações em bolsas de países emergentes não parece estar em alta. Pelo contrário. Isto contribui para que a relevância dos emergentes continue baixa.

A pergunta que muitos se fazem é: a partir de agora, qual a tendência para os mercados acionários globais? Como será o futuro dos mercados emergentes? É exatamente isto que uma pesquisa recentemente publicada pela PwC em parceria com a The Economist Intelligence Unit busca responder. E, para a surpresa de muitos, as expectativas não são as melhores. Em 2011, executivos de empresas foram consultados sobre aquilo que esperavam para 2025. Entre outras coisas, apenas 18% disseram acreditar que os mercados acionários desenvolvidos têm claras vantagens sobre os emergentes. Hoje, perguntados sobre suas expectativas até 2030, este número passou para 53%. Ou seja: de lá pra cá, os quase 400 executivos consultados se tornaram muito mais pessimistas, e enxergam barreiras difíceis de serem contornadas por estes países menos desenvolvidos.

A prática de listar empresas em bolsas de outros países (“cross-border equity issuance”, em inglês) — uma prática bem vista, e que costuma trazer uma série de benefícios às empresas, como a maior liquidez e até reflexos em menor custo de capital — é algo que não cresceu nos emergentes como se imaginava há alguns anos.  O comum ainda é empresas de emergentes listarem seus papéis em desenvolvidos, e o contrário parece ser menos óbvio. Desde 2011, por exemplo, grandes operações como estas incluíram empresas chinesas (Alibaba, Netease e JD.com, por exemplo) que foram às bolsas nos EUA, como NYSE e Nasdaq, para listarem seus papéis. Aliás, se havia alguma bolsa emergente capaz de rivalizar com as de Londres e Nova Iorque neste tipo de prática ela estava na China, segundo apontava o levantamento feito em 2011. Hoje, as expectativas mudaram de forma drástica. A julgar pela opinião dos executivos, as bolsas de China, Brasil, Índia e Rússia não se tornarão mais relevantes nos próximos anos.

A mudança de ânimos com relação aos mercados acionários dos países emergentes de 2011 pra cá parece estar relacionada a dois fatores: receio com a menor liquidez e volatilidade elevada das moedas. Dos consultados pela pesquisa, 33% apontaram a primeira preocupação; e 29% apontaram a segunda. O problema é que estes receios serão difíceis de serem contornados no curto prazo, e isto pode continuar a ser um freio ao crescimento da importância dos mercados emergentes. No entanto, o curioso é que 75% dos entrevistos consideram que as empresas hoje listadas em países desenvolvidos e emergentes têm mais opções de financiamento, tanto público quanto privado. Ou seja: há, sim, benefícios de ter suas ações em diferentes mercados. A conclusão é que os executivos das empresas globais pareciam muito otimistas em 2011, e agora parecem exagerar no pessimismo. A realidade costuma estar no meio do caminho.

 

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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