Os mercados têm reagido bem às palavras do presidente do Federal Reserve (FED), o BC dos EUA, Jerome Powell, e o mercado acionário segue acumulando ganhos em 2019. No entanto, Donald Trump e Cia. seguem com as suas ameaças comerciais. Mais: no mercado de juros, os sinais não são dos melhores e há quem diga que este segue indicando uma “recessão” adiante. Neste clima “misto”, o FED sinalizou que pode cortar os juros à frente, se isto for necessário. Ou seja: pode abandonar a sua cautela recente, e deixar a sua postura “paciente”. Qual é o risco desta estratégia? Ou, de um outro ponto de vista, qual é o risco de o FED continuar como está e não adotar esta estratégia?

A próxima reunião de política monetária do FED será nos dias 18 e 19 de junho. Neste encontro, a instituição divulgará novas projeções para PIB, desemprego, inflação e taxas de juros — algo que acontece apenas 4 vezes ao ano. Para 2019, podemos dizer que, segundo as últimas projeções do FED, a economia crescerá 2.1%, o desemprego ficará em 3.7% e a inflação, se considerada a métrica mais relevante para a política monetária, ficará em 2.0% ao ano. Embora sejam bons números, investidores estão muito atentos às sinalizações do FED e tudo aquilo que pode fazer os EUA desacelerarem mais adiante. Os últimos números do mercado de trabalho, diga-se de passagem, não foram muito positivos.

No ultimo dia 4 de junho (última terça-feira), o presidente do FED, Jerome Powell, participou de uma conferência em Chicago. O seu discurso, um dos destaques do cenário internacional nos últimos dias, acabou sendo muito bem recebido pelo mercado e fez com que as ações em Wall Street tivessem um dos seus melhores dias do ano. O índice S&P 500, por exemplo, subiu expressivos 2.1%, a sua segunda melhor sessão de 2019; e acumulava ganhos de 11.8%, até aquele momento. Em especial, diante disputa comercial que os EUA travam com China, México e outros países, Powell sinalizou que o FED poderia cortar os juros adiante, tentando evitar uma desaceleração econômica do país.

“Não sabemos como ou quando esses problemas [comerciais] serão resolvidos. Estamos monitorando de perto as implicações desses desenvolvimentos para as perspectivas econômicas dos EUA e, como sempre, agiremos de forma apropriada para sustentar a expansão, com um mercado de trabalho forte e a inflação próxima de nosso objetivo simétrico de 2%”, disse Powell. Na sequencia, o presidente da instituição abordou o tema da conferência — as “estratégias de política monetária, ferramentas e práticas de comunicação”, mas o recado principal estava dado: investidores entenderam que, se as políticas de Trump começarem a ter efeitos negativos sobre a economia, lá estará Powell e demais membros para (tentar) evitar o pior. A curva de juros, que vinha sendo pressionada para baixo por conta destes receios de desaceleração, reverteu parte desta pressão.

Após o recente discurso de Powell, o mercado precificava uma probabilidade de corte de juros na próxima reunião do FED de aproximados 60%. No início de maio esta probabilidade estava em 20%. Isto dá uma ideia de como as expectativas mudaram em pouco mais de 1 mês, agravadas não só pelas discussões comerciais, mas também pela postura do FED. Afinal, este pode, caso ache necessário, abandonar a sua recente postura “paciente”, mantendo os juros em 2.25-2.50% ao ano. O “problema”, no entanto, é a Casa Branca continuar apostando no confronto comercial, enxergando o (ainda) bom desempenho dos mercados como sendo um sinal de aprovação de suas políticas. Ou seja: ignorando que é o FED — com suas ações e sinalizações — quem tem contribuído para manter as ações em alta, e os investidores menos céticos quanto ao futuro da economia.

Por outro lado — e de forma ainda mais relevante, ao meu ver —, pode ser ainda mais problemático se o FED optar por não fazer nada, e simplesmente esperar. Claramente sem ferramentas necessárias para combater uma nova recessão, o melhor seria cortar os juros nos próximos meses, e tentar diminuir o risco de isto acontecer mais adiante. A verdade é que o ritmo da economia tende a desacelerar nos próximos trimestres, e é provável que a inflação continue a rodar próxima de 1.5% ao ano, abaixo da meta de 2.0% do FED. Ou seja: do lado “macro”, parece ser condizente. É também verdade que se o FED frustrar ao mercado, e não fizer o que dele se espera, a preocupação dos investidores tende a aumentar, também aumentando a probabilidade de uma “profecia auto-realizável” de recessão. Ou seja: em meio aos atuais riscos, o maior deles é o de insistir na paciência.

 

 

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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