População, migração e desenvolvimento econômico

tags Intermediário

Nem todos os trabalhos acadêmicos chamam a atenção do grande público. Aliás, muito provavelmente, é a pequeníssima minoria destes trabalhos aqueles que acabam tendo alguma repercussão imediata mundo afora. Afinal, nem todos tratam do curtíssimo prazo, e muitos são apenas ferramentas que ajudarão a explicar perguntas que ainda não foram nem mesmo elaboradas. Aliás, na área econômica, entre aqueles que passaram pela “academia” e o chamado “mundo real”, não são poucos os que falam que há um gap grande entre estes dois ambientes. Ou seja: enquanto na academia o interesse da pesquisa é um, no “mundo real” os economistas estão muitas vezes interessados em outras questões. Recentemente, no entanto, um trabalho sobre desenvolvimento econômico me chamou a atenção e merece destaque. Afinal, países que permitem uma migração terão benefícios no longo prazo? Qual é a relação entre desenvolvimento econômico e tamanho populacional?

Os economistas Klaus Desmet (Southern Methodist University), Dávid Krisztián Nagy (Centre de Recerca en Economia Internacional) e Esteban Rossi-Hansberg (Princeton University) foram agraciados no mês passado com o prêmio “Robert E. Lucas” de 2019, dado a cada dois anos àquele trabalho mais interessante publicado no respeitado Journal of Political Economy. De forma simplista, poderíamos dizer que eles desenvolveram um modelo que relaciona desenvolvimento econômico com o tamanho da população, levando em consideração a dinâmica de longo prazo (ou seja, como esta relação evolui com o passar do tempo). Num exercício que apenas na academia é razoável e possível fazer, os economistas simulam como esta relação evolui passadas centenas de anos, e nos ajudam a pensar nos dias de hoje. Os Estados Unidos continuarão a ser a potência econômica no futuro? A China ganhará mais forças adiante?

Segundo os premiados economistas, o crescimento de longo prazo é um resultado da inovação tecnológica. Até aqui, nada muito diferente do que outros economistas já exploraram e enfatizaram há muito tempo (aliás, com razão, este também é uma espécie de mantra que prevalece no “mercado”, fora do mundo acadêmico). O aspecto “inovador” é a relação com o tamanho da população, a dinâmica de longo prazo e como isto poderia ajudar a prever quais regiões do mundo acabarão ganhando relevância nos próximos 100, 200 ou até 400 anos. A questão principal é a seguinte: países com maior população tendem a acumular/desenvolver maiores inovações dado que o retorno desta atividade é maior vis-a-vis aquele que prevalece em países menores. Voilà: mesmo não sendo um canal direto, é possível através dos incentivos dados aos agentes econômicos explicar como isto ajuda ao crescimento do país.

Contrário a este “motor” que os autores abordaram, esta a migração. No “mundo real”, este tema da “migração” é polêmico e também parece encontrar certa repercussão dentro da academia. Neste momento, os países mais ricos não são os mais populosos. Se ficar mais fácil migrar, as pessoas tendem a migrar das regiões mais pobres em direção às mais ricas. Com isto, e levando em conta as relações que abordei antes, estes países teriam o seu desenvolvimento “assegurado”. Ajudaria a perpetuar aqueles que já são desenvolvidos. No entanto, se há relativamente pouca migração, os países mais populosos são os que tendem a desenvolver mais inovações no longo prazo, e isto lhes daria mais forças para crescer. Contribuiria para uma “convergência” entre ricos e pobres. Este processo não será rápido, e os próprios autores reconhecem que esta “convergência” pode levar aproximados 400 anos. Mas, se a migração continuar bastante restrita, os autores defendem que a Ásia e a África subsariana serão os grandes motores da produtividade no mundo.

Embora o trabalho de Desmet, Nagy e Rossi-Hansberg seja muito interessante, é também preciso considerar que há outros fatores envolvidos no crescimento econômico de longo prazo e que não passam apenas pelo tamanho populacional. Aliás, questões como “qualidade institutional” são, via de regra, um pouco mais consensuais entre os economistas. Isto também induziria a mais inovação, dada a capacidade de extrair renda deste processo a partir de patentes, etc. Mas não se engane: embora seja um assunto extremamente importante, não há um consenso no mundo acadêmico. E a verdade é que o restante do “mundo real” está muito mais interessado no curto prazo. Ainda assim, serve para termos em mente outro aspecto que pode mexer com as forças globais num futuro, e para que os líderes dos países entendam que tornar os países mais fechados ao resto do mundo não ajudará a ninguém. Nem mesmo àqueles que já são ricos.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

84 visualizações

relacionados

Bitnami