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PIB brasileiro: o governo vai saindo da sala do cinema

O último ano pré-crise foi 2014. Após o estopim da crise econômica, o Produto Interno Bruto do Brasil foi negativo por dois anos consecutivos (em 2015 e 2016). Nos anos seguintes observamos crescimento, mas ainda com uma timidez que tem assustado os mais otimistas. Neste ano teremos o maior crescimento do PIB registrado desde então, na ordem de 1,4%. Onde estaria o crescimento? Será que não estamos no caminho certo? No fim das contas, é importante notar que estamos diante de uma mudança razoável no modelo de crescimento.

O cenário econômico tem sido pouco a pouco modificado, de reforma a reforma, pelo lado da economia e de canelada em canelada, pelo lado político. Como reflexo disso, o PIB acumulado do terceiro trimestre de 2019, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentou crescimento de 1% comparativamente ao mesmo período do ano anterior. A grande novidade desse crescimento não está no seu valor em si, mas sim no seu pilar fundamental, uma vez que os fatores responsáveis por esse resultado foram o consumo das famílias e o investimento privado, sendo que pelo lado do governo (em seus gastos) observamos um recuo, na esteira das implicações da Emenda Constitucional do Teto dos Gastos Públicos.

Para ter uma noção simples sobre a composição do PIB, é importante observamos a equação mais clássica dos manuais básicos de Macroeconomia, a chamada equação do produto pela ótica da despesa:

Y = C + I +G + (X – M)

Y representa o produto, ou seja, o PIB de um determinado período. Enquanto que C, I, G e (X – M) representam o consumo das famílias, o investimento, os gastos do governo e as exportações líquidas, respectivamente. No terceiro trimestre de 2019, C e I subiram, enquanto G caiu. Além disso, também houve aumento no (X – M), dado que as exportações superaram as importações.

O que contribuiu para o crescimento do consumo das famílias para esse período – crescimento de 0,8% – foi a queda da taxa Selic, a liberação do saque do FGTS e a redução do nível de desemprego. A redução da taxa Selic permitiu que ficasse mais viável abrir um empreendimento ou negócio. Quanto a liberação do saque do FGTS, a permissão acarretou no aquecimento da economia, além de representar um direito para o cidadão – de ter acesso ao próprio dinheiro – mas isso é conversa para outro texto. Mesmo ainda em patamares elevados, o desemprego vem apresentando sucessivas quedas, em 2019, já ficando abaixo do nível de 12%.

Em relação ao crescimento do investimento, que foi de 2,9%, a grande contribuição veio do setor privado, mais especificamente do setor de construção civil. Tal aumento do crescimento no investimento é resultado da recuperação da confiança no Brasil, tanto pelo lado do consumidor quanto do produtor. O país atingiu, por exemplo, o menor risco país nos últimos nove anos. A redução da taxa Selic também contribuiu para o crescimento no investimento privado nesse período.

Porém, e o recuo nos gastos do governo, como pode estar relacionado ao crescimento do PIB? Acerca desse ponto, pode ser utilizada uma metáfora – a metáfora do cinema -,  que pode ser aprendida nas primeiras aulas de macroeconomia. Vamos imaginar uma sala de cinema: quando o governo quer encher essa sala, ele simplesmente compra todos os ingressos. No entanto, devemos perceber que esses ingressos comprados pelo governo poderiam ter sido comprados por outras pessoas, pelos indivíduos, que acabaram ficando de fora. Quando o governo ocupa o cinema, não sobra lugar para os indivíduos. Saindo dessa metáfora, os gastos governamentais, quando consideramos o período de 2014, encontravam-se num patamar que, além de insustentável e gerador de graves desequilíbrios fiscais, não permitia que a atividade privada se fizesse mais presente (ou, de alguma maneira, não a fazia se sentir necessária).

Foi devido a essa redução nos gastos do governo (o G da equação do PIB) no terceiro trimestre de 2019 – queda de 0,4% – que permitiu que as contas do governo fossem retomadas a um controle civilizado, tendo sido reduzido momentaneamente o desequilíbrio fiscal. Como consequência, a confiança em um ambiente econômico estável para investir – o espaço para o investimento privado -, tornou possível a implementação de medidas que elevasse o consumo (como a redução dos juros e a permissão dos saques do FGTS).

Desse modo, a expectativa é que o PIB continue crescendo, mas em novas bases, mais focadas na iniciativa privada do que na elevação contínua das despesas públicas. O resultado ainda está longe do ideal, mas as expectativas são boas, dado que o crescimento do PIB, continuando nessa tendência, pode trilhar um caminho sustentado – uma vez que esse tipo de crescimento sofre menos com um esgotamento de capacidade (limitação de gastos do governo), por exemplo.

O governo parece estar saindo da sala do cinema, os ingressos estão disponíveis para quem quiser comprar.

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