Petróleo e bolsas americanas em tempos de Black Friday

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Os preços do petróleo caíram mais de 6% na última sexta-feira (23) e estão nas mínimas desde outubro de 2017. Após começar o ano cotado a US$66,8/barril, oscila agora na casa dos US$58-59. Na mesma sexta de Black Friday — e volta do feriado de Thanksgiving nos EUA —, diversas bolsas recuaram ao redor do mundo (e não só no Brasil!). O que tem acontecido? Como explicar movimentos recentes? Neste texto, comento um pouco sobre o petróleo, e os movimentos do mercado acionário americano. Como é que o investidor deveria observar estes acontecimentos?

Começo pelo petróleo. Além de envolver questões geopolíticas complicadas de serem analisadas, a commodity é muitas vezes vista como um termômetro do crescimento global. No atual momento, esta é uma das maiores preocupações dos analistas. O Fed (o BC dos EUA), segundo suas projeções mais recentes, espera que os EUA cresçam 3,1% neste ano e que o ritmo recue para 2,5% em 2019 e 2,0% em 2020. No “longo prazo” — a despeito das políticas de curto prazo de Trump —, a economia não deve crescer mais do que 1,8%.

Além disso, notícias menos positivas têm vindo da Europa. O crescimento americano mais baixo, por exemplo, dificilmente será compensado pelos europeus. Considerando a zona do euro como um todo, o BC europeu afirmou há 2 meses (projeções oficiais mais recentes) que espera um crescimento de 2,0% neste ano; 1,8% em 2019 e 1,7% em 2020. De lá pra cá, muitos dados decepcionaram, e não seria impensável começarmos a falar de números mais baixos. Aliás, vale reparar: neste mesmo relatório, o BC europeu deixou várias de suas hipóteses explícitas. Entre estas, a cotação do barril do Brent, que passaria para US$71,5 até o final do ano.

Ainda sobre o tema “crescimento”: na semana passada, a OECD publicou um novo relatório revisando as suas projeções para os próximos anos. De maio pra cá, a expectativa para o PIB mundial em 2019 foi revisada para baixo, de 3,7% para 3,5%. Para 2020, esperam-se outros 3,5%. Segundo a OCED, as perspectivas menos animadoras para 2019 estão bastante relacionadas com os países emergentes; para 2020, são questões envolvendo mais às economias desenvolvidas — como redução do comércio e menores estímulos fiscais e monetários — que preocupam a instituição.

E as ações americanas? O índice S&P 500, por exemplo, fechou a semana aos 2.632 pontos. Caiu 0,7% na sexta e acumula uma queda de mais de 10% desde o seu pico de setembro. Aliás, em 2018, o índice recua 1,5%. Para quem estava acostumado com ganhos de aproximados 15% ao ano, durante os últimos 9 anos, como explicar tal desempenho medíocre? De forma bastante simplista, menos “catalisadores” positivos. Ou seja: menos motivos que justifiquem compras agora. Entre estes, a expectativa de que o crescimento econômico não será tão brilhante no futuro próximo (como confessam em suas projeções as instituições que citei anteriormente).

Isto não quer dizer que todo investidor deveria reduzir a zero a sua exposição em renda variável global. Mas, para quem concorda com as perspectivas menos brilhantes à frente, parece dizer que (i) as posições deveriam ser mais cuidadosas e/ou que (ii) a exposição a risco deveria ser reduzida. Está claro que tempos “negativos” — crise, recessão, pessimismo, etc. —, a correlação entre o desempenho das ações aumenta. Este é um fato, já bastante documentado na literatura. Dito de outra forma: torna-se mais difícil sobressair, e lutar contra a “maré”. Mas isto não quer dizer que todos os setores terão o mesmo desempenho. Basta ver a tabela a seguir, considerando o período de 1 ano.

Os setores de “Saúde” e “Consumo Básico”, por exemplo, sobem mais de 8% neste período. O setor “Financeiro”, que responde mais fielmente ao ciclo econômico, está mais próximo à estabilidade. O relacionado à “Tecnologia da Informação” também está próximo de zero. Do lado mais negativo, o setor de “Energia”, que tem sido afetado pelas cotações do petróleo, por exemplo. À frente, sem o motor do crescimento econômico, parece haver mais motivos — do que o “normal” — para ser mais seletivo como investidor. Lembre-se que, em tempos ruins, será mais difícil convencer ao restante do mercado de que tal empresa e/ou setor é uma boa aposta. Em tempos de Black Friday, vale o cliché de sempre: não compre no impulso. A conta chegará depois.

E não se esqueça! A Black Friday da Guide vai até o final de novembro. Participe!

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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