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Países ricos: de boom em boom?

Nos países desenvolvidos, há um boom de empregos. A taxa de desemprego nos EUA está em meros 3.6% — o menor nível em ao menos 50 anos. Dentre os países da OECD, dois terços registram um recorde de empregos. Aliás, mesmo em países da Europa como França, Espanha e Itália, a população empregada está próxima (ou já excedeu) dos níveis de 2005, segundo dados da revista britânica The Economist. É verdade que muitos ainda estão insatisfeitos com a sua situação econômica e política, mas não se pode dizer que o desemprego é, por si só, uma questão central na maioria dos países desenvolvidos. O boom dos empregos se dá por conta de fatores cíclicos, mas também tem componentes estruturais. Quais são estes fatores? Mais: isto pode levar a um boom da inflação mais adiante?

Do lado cíclico, os estímulos de diversos bancos centrais ao redor do mundo nos últimos anos têm contribuído para uma recuperação das economias. Ao diminuírem as suas taxas de juros e/ou comprarem títulos públicos e privados, o período subsequente à chamada Grande Recessão tem sido marcado por uma gradual melhora de vários países. Do lado mais estrutural, é preciso destacar uma população mais educada, a maior participação das mulheres no mercado de trabalho e novas tecnologias que têm contribuído para facilitar o encontro entre aqueles que estão ofertando e demandando trabalho, por exemplo. Isto, inclusive, tem feito com que o poder de barganha entre trabalhadores e empregados tenha migrado para este segundo grupo de pessoas nos últimos anos, refletindo numa pressão altista sobre os salários (ainda que seja menor do que a esperada por muitos economistas). Estes fatores foram importantes para o boom dos empregos nas economias avançadas.

Um mercado de trabalho aquecido deveria exercer, tudo mais constante, uma pressão altista sobre a inflação destes países. No entanto, tal relação causal (abordada aqui de forma simplista) entre mercado de trabalho e inflação não parece ter o respaldo nos dados atuais. Este “mistério” segue sendo uma importante fonte de discussão entre economistas. Embora não tenha sido o objetivo central da matéria de capa da The Economist, destacar o boom dos empregos em muitos países desenvolvidos serve para lembrarmos que, mais cedo ou mais tarde, a inflação pode voltar a subir por lá. Este é um receio que poucos investidores parecem dividir no momento, a julgar pelas projeções de inflação em várias economias. Nos EUA, por exemplo, a inflação precificada pelos títulos de 5 anos está próxima de 1.6%, abaixo da meta de 2% do banco central. Na Europa, as projeções de inflação têm sido revisadas para baixo, e o próprio banco central as reduziu entre dezembro e março deste ano.

Em suma: a inflação pode voltar. Isto é o que o economista Mohamed El-Erian afirma em seu último artigo para a revista Project Syndicate, sugerindo que fatores que têm contribuído para manter a inflação (surpreendentemente) baixa podem não durar para sempre. Embora os bancos centrais “expliquem” este fenômeno de inflação baixa apontando para uma “insuficiente demanda agregada”, há questões estruturais que merecem mais atenção. Inovações tecnológicas, por exemplo, também podem — e devem! — estar contribuindo para manter os preços baixos, “alheios” à famosa relação entre ritmo econômico e inflação que se aprende nos cursos de introdução à Economia. O apelidado “efeito Amazon/Google/Uber” pode ser revertido, fazendo referência às empresas do setor que, de uma forma ou de outra, parecem ajudar a manter preços mais baixos nestas economias. Segundo o próprio El-Erian, poderíamos estar às vésperas de uma nova fase de inflação mais alta, por conta de: (i) mercados de trabalho muito aquecidos, (ii) políticas populistas e (iii) maior concentração de mercado destas empresas do setor de Tecnologia.

O boom dos empregos em diversos países desenvolvidos tem sido um reflexo de questões cíclicas e estruturais. No curto prazo, tudo aponta para um mercado ainda aquecido, condizente com o período do ciclo econômico que muitos vivem (parece razoável supor que estamos no “auge” destes ciclos, mas isto é tema para um outro artigo). A inflação, até aqui baixa e controlada, pode voltar a subir, e a força do mercado de trabalho poderia acabar sendo uma das razões mais evidentes. Mais do que isso: as empresas do setor de tecnologia, que até aqui parecem contribuir para mantê-la muito baixa, podem começar a exercer um efeito contrário, dado a concentração de mercado. O boom dos empregos exaltado pela The Economist pode se transformar, mais adiante, num boom da inflação? Não há resposta consensual no momento, e muitos ainda nem pensam nesta possibilidade. Ainda.

 

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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