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Os mercados querem “mais” dos bancos centrais

As ações nos EUA bateram mais um recorde de alta nos últimos dias, e os mercados internacionais, de modo geral, passam por um ótimo momento. Após sinalizações desta semana dos bancos centrais de Europa e EUA, investidores reagiram de forma positiva, e tudo indica que este ânimo de curtíssimo prazo pode durar mais um pouco. Podemos dizer que receios quanto ao crescimento econômico global e uma inflação sob controle vão permitindo — e reforçando a necessidade de — uma política monetária mais “expansionista” por parte de importantes bancos centrais. Mas, afinal, quais foram as novidades da semana passada?

No início da semana, o banco central da Europa (ECB, na sigla em inglês) se reuniu em Sintra, Portugal, para discutir os 20 anos da União Monetária e Econômica da Zona do Euro. Mario Draghi, o atual presidente da instituição, afirmou que poderia adotar mais políticas “expansionistas” — neste caso em particular, aumentar o programa de compra de ativos (quantitativa easing, em inglês) —, caso o cenário para a inflação não melhore na região. Além de enfraquecer o euro frente ao dólar, Draghi contribuiu para impulsionar as ações, não só na Europa, mas também nos EUA. Aliás, por conta do enfraquecimento do euro, o presidente dos EUA, Donald Trump, foi logo ao Twitter reclamar da suposta “injustiça” praticada pelos europeus. Seja como for, foi uma mostra clara (i) das intenções do ECB e (ii) do poder para mexer com os mercados que os bancos centrais têm.

Dias depois, na quarta-feira (19), o FED tinha a sua reunião de política monetária — a quarta das 8 reuniões marcadas para 2019. Esta era uma reunião bastante “complicada” para Jerome Powell, o presidente da instituição. Afinal, entre os mais diferentes eventos do cenário internacional, alguns têm capacidade de influenciar as suas decisões: (1) tensões comerciais entre EUA e China; (2) receios crescentes quanto ao crescimento econômico e o futuro da inflação; (3) reportagens afirmando que o presidente Trump estudou retirar Powell do seu cargo; e (4) ansiedade quanto ao encontro do G-20 (na próxima semana). Mesmo que tentasse ser “sutil” em sua comunicação, Powell não o seria. Ou seja: estava claro que esta reunião de junho era importante aos olhos do mercado, e que faria “preço”, tendo em vista as reações àquilo que Mario Draghi havia falado pouco antes.

O FED manteve os juros inalterados entre 2.25-2.50% ao ano, mas as sinalizações de Powell e as novas projeções oficiais quanto às taxas de juros indicam que há um claro viés “expansionista” da política monetária. Ou seja: neste caso, há claras indicações de que os juros cairão até o final do ano. A princípio, o plano de voo do FED indica 2 cortes. O mercado, no entanto, começa a precificar um pouco mais: segundo cálculos da Bloomberg, precifica-se no mercado uma probabilidade de aproximados 70% para 3 cortes de juros até o final de 2019. Se isto acontecer, os Fed Funds Rate passariam de 2.25-2.50% para 1.50-1.75% ao ano — um movimento que pode contribuir para dissipar o temor quanto à próxima recessão econômica, e colocar a inflação mais próxima da meta de 2% do banco central. Podemos dizer que Powell “deu” ao mercado o que ele “queria”, mas o mercado agora quer “mais”. Dito de outra forma, Powell conseguiu passar o recado, mas é possível que os cortes acabem sendo maiores do que ele imagina. Tudo dependerá do cenário.

Ao longo da coletiva de imprensa, Powell tentou dizer aos investidores que a mudança de postura do FED desde a última reunião de política monetária, no início de maio, deve-se menos às disputas comerciais envolvendo aos EUA e mais às perspectivas de crescimento global. Independentemente das verdadeiras razões do FED, não há como negar que o receio quanto à desaceleração econômica global tem se intensificado nas últimas semanas. O próprio Draghi parece reagir a este receio. Dada a dificuldade de vislumbrar um fim à “guerra comercial” entre EUA e China, e uma economia americana que dificilmente será capaz de manter por muito mais tempo o atual ritmo econômico, não seria estranho se o mercado começasse a precificar uma probabilidade mais elevada de 3 cortes de juros nas próximas semanas. Isto, é claro, seria condizente com dados econômicos que podem começar a mostrar os impactos negativos da tal “guerra comercial”, e que ainda não foram observados de forma clara.

Em suma: após uma semana de ganhos nas bolsas internacionais, e sinalizações generalizadas de políticas monetárias mais “expansionistas” — além daquilo que comentei sobre o FED e o ECB, a polícia monetária de outros países, como Reino Unido e Japão seguem a mesma direção —, investidores voltam a colocar as suas expectativas no poder dos bancos centrais. Neste momento, é possível que este alívio nos mercados se estenda ainda por mais algum tempo, sem evidentes sinais de uma recessão no curtíssimo prazo nestas economias. Será importante monitorar os dados de atividade e inflação (especialmente nos EUA e na Europa) para confirmar que os bancos centrais continuarão a sustentar as expectativas dos investidores. Os mercados agora querem “mais”.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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