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Os mares ainda não navegados pelas empresas de dados

A internet é um campo aberto. Desde sua difusão mais ampla, que ocorre dos anos 1990 até hoje, temos a impressão de que a imposição de regras do jogo nesse território seria algum tipo de cerceamento ou proibição.

Criada no final dos anos 1960 e com objetivos militares (chamada inicialmente de Arpanet), tivemos nesse meio novo de transmissão de todo tipo de dados – de mensagens a fotos e vídeos – um incremento espetacular em termos de comunicação nas últimas décadas. Não há dúvidas do quanto estar conectado pode melhorar a interligação entre as mais distantes regiões do mundo (e, claro, também a economia).

Entretanto, há duas questões cada vez mais em voga: o que é feito da massiva quantidade de dados que circula todos os dias? E, ainda mais amplamente: a quem pertencem os dados que eu e você, usuários, produzimos todos os dias?

Essas duas questões se colocam cada vez mais presentes devido a acontecimentos recentes envolvendo eleições e eventos políticos correlatos. As questões circundam o seguinte fato: através de um entendimento dos macrodados gerados diariamente por milhões de pessoas, é possível que se organizem grupos imensos em grupos menores (possivelmente bolhas ideológicas) e, a partir disso, que conteúdos sejam direcionados especificamente àqueles grupos. No fim das contas, há influência sobre o comportamento dessas bolhas.

O que parece o sonho de todo gestor de marketing (porque, afinal, coloca nas mãos de alguém que quer comprar algo a possibilidade de), pode se tornar altamente questionável quando se pensa na suscetibilidade envolvida de alguém que está indeciso diante de decisões eleitorais.

Três casos que envolvem decisões populares estiveram sob a lupa da opinião pública e das autoridades: a eleição de Donald Trump, o plebiscito pelo Brexit e a eleição de Jair Bolsonaro. Especificamente em relação ao primeiro caso, a situação pesou bastante para o Facebook que, segundo apontam investigações recentes, tinha consciência do uso direcionado de seus dados (ou melhor, dados de seus usuários) pela Cambridge Analytica, empresa especializada neste tipo de serviço.

Há um recente documentário na Netflix que trata sobre essa questão e busca conscientizar as pessoas a respeito da importância do que as empresas fazem com nossos dados. O nome dele é Privacidade Hackeada e envolve conversações diretas com quem trabalhava para a Cambridge Analytica e pode presenciar os planos da empresa sobre as eleições norte-americanas de 2016 e outros eventos mundiais que envolveram opinião popular.

Para além de usos de dados para gerar direcionamento, existe também uma questão a respeito da segurança dos dados. Você sabe exatamente quem acessa seus dados e quais dados? E quanto a sua empresa, você sabe se os dados estão seguros ou vulneráveis?

A vulnerabilidade de dados pode se dar em dois aspectos: eles estarem disponíveis para quem não precisariam estar (podendo te causar algum problema) ou serem roubados de uma base de dados. A respeito deste primeiro ponto, temos hoje uma iniciativa no Brasil que busca estabelecer regras do jogo e um questionamento na Europa em relação a uma das maiores empresas do mundo.

Por aqui temos a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), lançada em 2018, e com previsão de implementação até o segundo semestre de 2020, que busca regular as obrigações às empresas que se utilizam de dados de brasileiros no tocante à como devem proceder para protegê-los. Há hoje um portal governamental exclusivo para sanar dúvidas a respeito do assunto, detalhando os direitos dos cidadãos, as obrigações das empresas e o papel do governo em mediação dessas relações. No fim das contas, esse marco legal busca fazer com que os dados de uma pessoa, caso sejam utilizados, tenham real consentimento da mesma e que, em toda a extensão, eles possam estar o mínimo possível sujeitos a vulnerabilidades.

Na Europa temos uma decisão inédita em tramitação: o chamado direito de ser esquecido tem colocado de um lado a Google (do grupo Alphabet) e, de outro, o órgão regulador de proteção de dados da França. A questão parece simples, mas envolve muitas mudanças potenciais: é de interesse público que todo dado publicado na internet permaneça lá ou é direito do cidadão retirar o que poderia desaboná-lo? Ou, mais diretamente: os dados de um cidadão pertencem a ele ou a plataforma em que ele as publica ou permite transmitir?

Temos nesses questionamentos uma imensa gama de possibilidades de discussão. Por ora, estão sendo ouvidos os especialistas de diversas áreas correlatas e, pelo mundo, normas estão sendo definidas. Em termos práticos, essa segurança adicional aos usuários imporá custos de adaptação às empresas, mas, como é sempre bom relembrar, não há almoço grátis de dados: ou eles ficam sem proteção e a “custo zero” viram um produto, ou passam a ter sobre si mais atenção e haverá custo a quem tiver interesse em utilizá-los.

Trata-se de um início de questionamento válido e que não deve parar por aí. Estes mares nunca antes navegados pelas empresas – todas, mas sobretudo as de tecnologia e que trabalham com imensa quantidade de dados dos usuários – agora parecem oferecer enjoo aos tripulantes devido ao tamanho das ondas que se aproximam. Mas, como diz aquela clássica máxima, mar calmo nunca fez bom marinheiro. Lidando com essas questões da melhor forma possível saem melhores os usuários, as empresas e o mercado como um todo.

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