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O medo voltou. Precisamos comemorar. “A turbulência observada na semana passada era exatamente o que precisávamos. Pena que não tenha ocorrido muito antes”, observou Martin Wolf, do Financial Times1. Refere-se, é claro, à recente queda das bolsas globais. Afinal, qual foi a causa de tais “correções”? Como devemos encará-las? Outras virão pela frente?

Não foi pouca coisa: do dia 26 de janeiro ao dia 8 de fevereiro (9 sessões), o índice americano S&P 500 caiu expressivos 10%. No acumulado de 2018, até o dia 8, o índice acumulava uma queda de 3,5%. Para quem subia 40% desde o início de 2016, a queda de 10%, em menos de 10 dias, é relevante. De lá pra cá, o índice se recuperou um pouco, mas ficou evidente: a volatilidade dos mercados – que permanecia surpreendentemente baixa até aqui – voltou. E veio para ficar.

Qual a causa das tais “correções”? Em nossa opinião, grande parte do “susto” que motivou tais quedas nos mercados acionários, neste início de fevereiro, se deve à perspectiva de uma inflação mais alta nos EUA. No último dia 2 de fevereiro, o Relatório de Empregos americano mostrou um crescimento dos salários acima do esperado pelo mercado. Embora o link entre salários e inflação seja menos consensual do que nunca, esperamos que, aos poucos, a pressão salarial comece a puxar a inflação para cima.Falamos disto no texto da semana passada (“Uma Nova Realidade (Americana)”).

Embora outros fatores possam ser apontados como os “culpados” – posição técnica desfavorável; robôs de Wall Street; apostas em índices de volatilidade que continuariam baixos por mais tempo; etc. –, o principal, em nossa opinião, segue sendo a mudança de percepção: o mercado, que vinha sendo muito cético até aqui, começa a ver a possibilidade concreta de os juros americanos subirem nos próximos meses (em linha com aquilo que o Fed tem sinalizando)2.

O nosso Banco Central (BC), por exemplo, está muito atento à trajetória dos juros americanos. Hoje, em suas Notas do Copom, citou: “a trajetória prospectiva da inflação de preços e salários pode tornar esse processo mais volátil e produzir algum aperto das condições financeiras globais”. Refere-se, é claro, à possibilidade de aumento de juros nos EUA diminuir a liquidez global. É algo que contribui, em nossa opinião, para que o BC deixe de reduzir a Selic. Como temos dito, parece-nos que esta deve continuar nos atuais 6,75% por alguns meses.

Como devemos encarar tais “correções”? É aqui que entra o alívio de Martin Wolf. Parece-nos que a volatilidade recente pode fazer o investidor pensar mais antes de adicionar risco à sua carteira; e que o “susto” pode levá-lo a adotar uma postura mais cautelosa, menos propensa a risco3. Menos irracional. É fácil neste contexto lembrarmos do economista Hyman Minsky, conhecido por sua “hipótese da instabilidade financeira”: períodos de estabilidade e prosperidade dão espaço para fragilidades financeiras. Afinal, segundo ele, investidores, com o passar do tempo, se tornariam complacentes.

Em suma: podemos encarar as “correções” recentes como algo positivo. Talvez evite que cheguemos ao último estágio do “momento Minsky”: a inevitável crise financeira, fruto de decisões irracionais em momentos de crescimento e taxas de juros baixas. Também podemos ver as “correções” recentes como algo transitório, dado que os “fundamentos” seguem positivos. Dito de outra forma: a economia global cresce forma consistente, e os dados de atividade são encorajadores.

Diferentemente das últimas crises americanas (a dot-com, no início dos anos 2000; e a do subprime, entre 2007 e 2010), não há neste momento uma única classe de ativos que destoe de forma obvia. Estão todas “caras” ou “muito caras” – algo que se justifica, em grande medida, por conta do recente período de juros extremamente baixos. Assim, até certo ponto, as “correções” recentes também são vistas como “saudáveis”, reduzindo excessos, sem serem considerados como sinais de uma instabilidade financeira à frente.

Aos olhos de hoje, continuamos acreditando que as perspectivas para as principais economias do mundo seguem positivas. A volatilidade dos mercados deve continuar mais alta na comparação com 2017; e a transição para um mundo de taxas de juros mais altas é uma realidade, que trará, inevitavelmente, mais “sustos” à frente.

Observações:


1- “A bit of fear is good for markets”; publicado no Financial Times dia 13 de fevereiro;


2- Os mais céticos quanto à elevação da inflação nos EUA, apesar do crescimento mais forte (e do mercado de trabalho aquecido) costumam citar 3 motivos: (1) aumento da produtividade; (2) resquícios da última crise financeira, que tirou mais de 3,5 milhões de americanos da força de trabalho; e (3) recente quebra do link entre salários e inflação, também por conta de expectativas de inflação muito baixas e ancoradas do mercado;


3- Segundo pesquisa recente da revista britânica The Economist, investidores consultados reportaram a maior exposição à renda variável em 2 anos; e a menor exposição em cash em 5 anos.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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