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Nowcasting: como está a economia americana?

“Somente ao analisar as mais diversas variáveis, individualmente com significado restrito, é que será possível entender os ciclos da economia. ” Esta frase não é minha e não é dos dias de hoje. É importante dar os créditos: de uma forma muito parecida, foi dita e explorada pelos economistas Arthur Burns e Wesley Mitchell, num famoso trabalho de 1946. Em tempos de big data, a importância destes insights tem aumentado nos últimos anos. Aliás, contribuíram para o surgimento do termo nowcast na literatura econômica: a previsão (forecast, em inglês) do presente. A questão é: como saber o atual estado da economia, diante de tantas informações, muitas vezes conflitantes? Se pudéssemos analisar todas as variáveis ao mesmo tempo, o que diríamos sobre a economia dos EUA, por exemplo?

A idéia central de Burns e Mitchell é simples: para entender o atual momento da economia, é preciso levar em consideração o maior número possível de variáveis. Não adianta tentar selecionar umas poucas, preferidas, como se fossem as únicas capazes de medir o momento econômico. Dito de outra forma: somente assim, juntas, como se fossem peças de quebra-cabeças, é que seríamos capazes de compreender o momento da economia. Medir esta variável abstrata, chamada de “estado da economia”, não é tão simples quanto parece. Como medir o atual estado da economia? De forma mais prática: como medir o crescimento do PIB do trimestre no qual estamos agora, por exemplo?

Do ponto de vista estatístico, o primeiro problema é o número insuficiente de observações macroeconômicas. O PIB, por exemplo, é divulgado apenas 4 vezes ao ano (variável trimestral). Assim, ao tentarmos utilizar as “clássicas” ferramentas estatísticas, com centenas de variáveis explicativas, cairíamos no problema da dimensionalidade. Sem entrar em detalhes, há outros desafios: os dados costumam ter frequências de divulgações distintas (muitas são mensais, por exemplo); e o modelo precisaria ser capaz de lidar com dados “faltantes”. Ou seja: precisaríamos ser capazes de fazer atualizações para o PIB deste trimestre sem termos a versão mais recente de todas as variáveis do nosso modelo à disposição.

Pois bem: nos anos recentes, uma nova literatura econômica tem desenvolvido trabalhos neste campo, incorporando técnicas estatísticas até há pouco não exploradas. O nowcasting é agora uma importante ferramenta em bancos centrais e instituições privadas. Passados mais de 50 anos, os insights de Burns e Mitchell têm sido adequadamente aplicados. É possível construir modelos que monitoram a economia em tempo real, analisando centenas de variáveis ao mesmo tempo, e extraindo delas o que realmente interessa. Os problemas que descrevi no parágrafo anterior, até há pouco intransponíveis, foram superados. Mais do que isso: estes modelos conseguem fazer previsões mais certeiras do que os analistas profissionais, especialmente quando o horizonte de previsão é de curtíssimo prazo.

No caso da economia americana, qual é o nowcasting atual? Como está a economia? O FED de NY divulga todas as sextas-feiras uma atualização do seu modelo de nowcasting e é fácil acompanhá-lo. Após ter acertado o crescimento de 1.9% do terceiro trimestre, projeta para o quarto trimestre um crescimento de meros 0.8%. O setor industrial é o que tem puxado a sua projeção para baixo. E é interessante notar: este número tem recuado desde o dia 20 de setembro. Apesar dos bons números do setor de construção e mercado de trabalho, a economia, segundo o modelo de nowcasting, vai perdendo fôlego. A sua atenção pode até ficar restrita a algumas poucas variáveis (todos temos uma preferida!), mas não se esqueça da lição de Burns e Mitchell: para medir o atual estado da economia, precisamos de todas.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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