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O que acontece com o dólar?

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O dólar tem se fortalecido ao redor do mundo, especialmente frente às moedas dos emergentes. Considerando este grupo, o dólar se valoriza em 75% dos casos*. Frente aos países desenvolvidos, a performance do dólar é menos brilhante. Mas, ainda assim, parece ter estancado a tendência de queda que já durava meses. Em 2017, o dólar caiu 10% frente a seus principais pares**. Olhando para o Real, quais são as perspectivas? O que podemos dizer do comportamento recente? 

Para 2018, esperávamos*** um dólar um pouco mais forte, especialmente frente aos países emergentes. Víamos um dólar bastante diferente de 2017. Estes países emergentes, que vinham num ciclo de cortes de juros (o Brasil incluído!), acabariam interrompendo este processo, mais cedo ou mais tarde, diante de um cenário externo em transformação. Ainda assim, a velocidade de apreciação do dólar, ao menos frente ao real, tem chamado a nossa atenção. Embora o viés frente às moedas de emergentes fosse mais negativo em 2018, era difícil antever com precisão o timming deste movimento.

Qual é o pano de fundo internacional? 

Em grande parte, o banco central dos EUA (o chamado Fed). Afinal, ele continua com a normalização de juros (tendência de elevação), em linha com o viés de alta da inflação e economia mais aquecida por lá. Estas perspectivas****, embora mais evidentes neste momento, não eram tão consensuais no início do ano, vale ressaltar. De lá pra cá, o mercado começou a se convencer, e a colocá-las nos preços. É exatamente por isso que o dólar tem se valorizado. Segundo a Bloomberg, no início de 2018, o mercado atribuía uma probabilidade de meros 27% para o cenário-base do Fed (3 elevações de juros em 2018). Hoje, este quadro está muito melhor precificado.

E o pano de fundo doméstico? 

Aqui, além da incerteza eleitoral, o diferencial de juros com relação aos EUA é cada vez menor, e tem contribuído para diminuir o interesse pela moeda brasileira vis-a-vis o dólar. O nosso BC ainda continua com o ciclo de cortes de juros, mas deve parar muito em breve. Em nossa opinião, a Selic cairá para 6,25% dia 16 de maio, e ficará neste patamar por alguns meses, inalterada. A despeito de uma alta do dólar (frente ao real) de aproximados 10% em 2018, Ilan Goldfajn, o presidente da instituição, fez questão de salientar que o BC olha para um conjunto mais amplo de variáveis. O câmbio é uma delas, apenas. A inflação ainda fraca (vide o IPCA de abril divulgado nesta 5ª, dia 10) e a atividade que tem frustrado nos últimos meses (as projeções de PIB para 2018 vão rumo a 2,5%, e não mais 3,0%) ainda permitem mais 1 corte de juros, em nossa opinião.

E nos próximos meses? 

Diante da crescente relevância da corrida eleitoral no Brasil, esta deve crescer em importância para explicar os movimentos do câmbio, e dos mercados locais, de modo geral. Até aqui, acreditamos que grande parte se deve ao cenário externo*****. Isto nos parece evidente. Agora melhor precificada a normalização de juros nos EUA (embora seja fonte de volatilidade), os holofotes tendem a migrar, naturalmente, para a política doméstica. Aqui é que reside o “problema”. Esta é mais difícil de prever. Em nossa opinião, não vemos ter grandes “gatilhos” positivos para os mercados até meados de julho, considerando o front político.

 

Sobre a política, valem algumas ponderações… No atual momento, vemos Bolsonaro (PSL) ainda muito forte, alguém percebido como “anti-establishment”, e com um “piso” interessante, que parece lhe dar condições claras de ir ao 2º turno. Não tem estrutura partidária, e tem 2 desafios claros: migrar mais ao “centro” e se aproximar das mulheres. O 1º parece mais fácil que o 2º, em nossa opinião. Enquanto isso, vemos Alckmin (PSDB) com dificuldade de ganhar tração, ao menos até meados de julho. Precisa fortalecer o apoio do setor agro, e resolver a questão do Sul do país, que hoje tem Álvaro Dias (Podemos) como alguém que lhe subtrai votos. A propaganda eleitoral vai de 31 de agosto a 5 de outubro. Está mais concentrada do que em eleições anteriores. O tucano pode até ganhar tração às vésperas da eleição (a depender dos arranjos, pode ter quase 60% do tempo de propaganda!), mas, até lá, a “esquerda” ou a “centro-esquerda” parece ter uma oportunidade para ganhar forças.

 

O dólar, portanto, não parece ter grandes “gatilhos” para devolver a alta recente. Embora a situação das contas externas seja favorável (déficit em conta corrente ao redor de 0,4% do PIB em 12 meses), e o montante das reservas internacionais elevado (US$380 bilhões, pouco abaixo de 20% do PIB), questões de curto prazo – maior cautela no exterior e quadro político doméstico incerto – devem ditar os rumos da taxa de câmbio neste momento.

Segundo sinalizações recentes, o BC pode tentar suavizar movimentos dos mercados mais bruscos, garantindo o seu bom funcionamento, apenas. Esperamos que o BC continue intervindo no mercado cambial, mas sem tentar evitar ou frear uma direção. O “fenômeno” de dólar mais forte é global*****, e o BC sabe muito bem disto. No jargão dos economistas, a taxa de câmbio é um “preço”, endógeno, resultado de diversos fatores. Tentar fixa-la é incorrer num erro já cometido no passado. Falar em “taxa de câmbio de equilíbrio para a indústria”, ou algo do tipo, é, no mínimo, um erro.

Conclusão

A depreciação do real parece ser um “fenômeno” que veio para ficar, e não vemos grande alívio no curto prazo. Uma reversão significativa dos movimentos recentes é pouco provável. Isto se deve, em grande parte, ao quadro externo. Além disso, aos poucos, os holofotes se voltarão ao front político local. Obviamente, este ainda não está 100% nos preços. Aliás, há bastante espaço para surpresas “negativas” nos próximos 2 a 3 meses. Embora no final do ano, a depender do resultado eleitoral, o dólar possa voltar a ficar mais baixo (possivelmente mais próximo de R$3,40), não vemos, neste momento, motivos para apostar a favor do real, com convicção. Como falamos deste o início do ano***, o viés para o dólar, frente a moedas de emergentes como um todo, tende a ser de valorização. E isto é, em nossa visão, um movimento mais estrutural.

 

Referências:

*Considerando cotações de referência da Bloomberg, em 2018, até o dia 10 de maio. Consideramos 24 países emergentes nesta análise;

**Considerando o dólar index (DXY);

*** Estas perspectivas quanto ao dólar (versus emergentes) e quanto à interrupção gradual das quedas de juros (nos emergentes) estão em nosso Relatório Anual, divulgado no final do ano passado;

****Em nosso blog, nas últimas semanas/meses, temos publicado textos falando bastante sobre o cenário de EUA (e de juros mais altos no exterior), que considerávamos como sendo chave para explicar movimentos nos mercados locais. Dois exemplos claros: “Uma nova realidade (americana)” e “O mundo está mudando”;

*****Estudo recente de pesquisadores do Ibre (Samuel Pessoa e Lívio Ribeiro) mostra que 80% da depreciação do real no ano deve-se ao cenário externo, e o restante ao menor diferencial de juros entre EUA e Brasil, entre outros fatores;

******Fazendo referência à entrevista de Ilan Goldfajn à GloboNews desta 3ª (08/05).

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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