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Recentemente li a carta anual escrita pelo CEO da gestora BlackRock, carta que é principalmente voltada aos CEOs das companhias investidas por sua gestora, mas também aos empresários que tenham interesse de ouvir conselhos valiosos para o bom desenvolvimento de seus negócios.

A carta é normalmente lançada em janeiro e reporta as perspectivas ou premissas que Fink considera serem importantes para o ano que se inicia. Bem, antes de mais nada, faço uma pequena mea culpa, e gostaria de me desculpar com vocês, leitores, de compartilhar uma carta tão importante lançada em janeiro, somente em março.

No entanto, a meu favor, acredito que os pontos principais da carta são de certa forma atemporais. Se este mesmo artigo fosse publicado em 2028, sua principal mensagem poderia ser absorvida por vocês sem perdas consideráveis em termos de atualidade e contextualização.

Certo, para aqueles que não conhecem ou só ouviram falar brevemente da BlackRock, trata-se de uma gigante americana de quase 30 anos, a maior do mundo no setor de gestão de patrimônio – no final do ano passado a e empresa gerenciava aproximadamente 6,3 trilhões de dólares no total, sendo destes 1,7 trilhões em estratégias ativas de investimento. Portanto, o que o principal líder desta companhia tem a dizer tem um impacto gigantesco em todos os outros participantes do mercado de capitais mundo afora.

Feito isso, vamos a carta.

O desafio de Fink

Fink inicia sua carta expondo sua principal preocupação em relação ao propósito de sua própria empresa, que é fazer com que seus clientes médios, a maioria daqueles que investem em seus fundos, possam alcançar seus objetivos de longo-prazo, principalmente de conseguir acumular patrimônio financeiro suficiente para se aposentar com conforto.

O autor entende o desafio que tem em mãos: o voto de confiança de investidores que depositaram em sua gestão a responsabilidade de alcançar seus objetivos financeiros de longo prazo. E para cumprir tal desafio, Fink entende que a BlackRock precisa investir sempre em companhias que estejam engajadas e, acima de tudo, comprometidas com um crescimento sustentável de longo prazo.

Vive-se neste início de 2018, por parte dos investidores, um paradoxo de sentimentos: altos retornos e uma alta da ansiedade. Investidores estão ansiosos em um ambiente de juros baixos, baixas taxas de crescimento e planos de aposentadoria inadequados. Esta ansiedade generalizada é, para o gestor, a fonte de toda polarização vista no mundo hoje.

Consequentemente, a sociedade em geral encontra-se descrente com as soluções propostas pelos seus governantes e se volta também ao setor privado para forçá-los a atender suas demandas, ansiedades e desafios.

Em resumo, Fink alerta que a sociedade cobra hoje das empresas, que as mesmas tenham, acima de tudo, propósito social: ir além da entrega de bons resultados financeiros, mas que façam de fato uma contribuição positiva e relevante à sociedade, sendo este último o principal fator que sustentará as empresas ao longo dos anos.

Um novo modelo de governança corporativa

Para você ter um pouco de noção do comprometimento de Fink em seu novo desafio, o CEO deixa um recado claro: sua empresa, a BlackRock irá vender as posições que possui de companhias que a gestora estiver em dúvida de suas reais estratégias de crescimento direcionadas ao longo prazo.

Visando realmente executar seu discurso e “walk the talk”, Fink em nenhum momento esconde a responsabilidade da BlackRock em estar ativa como agente estratégico que represente os interesses de seus clientes, aumentando o engajamento dentro das próprias companhias investidas. Esta responsabilidade vai além de assembleias anuais e acompanhamento de balanços trimestrais.

O autor acredita que deva haver um novo modelo de governança corporativa, mais participativo, representativo e baseado em uma comunicação profunda, dinâmica e contínua. Comunicação que envolva de forma clara todos os interessados no sucesso de longo prazo da companhia investida.

Uma prova disso foi o crescimento, dentro da própria BlackRock, de funcionários exclusivamente focados em fatores determinantes de perpetuidade das empresas. Estes novos representantes buscarão um engajamento ainda mais efetivo com a companhia investida, construindo uma estrutura de comunicação mais profunda, mais frequente e mais produtiva.

Sua estratégia, sua diretoria e seu propósito

Dito qual o papel da BlackRock neste processo, a última parte da carta, e talvez a mais valiosa, é dedicada exclusivamente às empresas – sejam elas investidas pela gestora ou aquelas que pretendem ter esta gigante como sócia.

São dados conselhos primorosos de como adotar este novo modelo de governança sugerido pelo gestor.

Em primeiro lugar, as companhias devem estar aptas a descrever, publicamente e de forma cristalina, quais são suas estratégias de crescimento sustentável para o futuro. Estas estratégias devem estar totalmente alinhadas entre seus funcionários e chanceladas por sua diretoria e seu conselho de administração.

Conselhos reúnem-se esporadicamente, mas sua responsabilidade deve ser contínua. Diretores e conselheiros, cujo conhecimento e contribuições são utilizadas somente em reuniões esporádicas, não estão cumprindo totalmente seu dever para com seus acionistas.

Os comandantes das companhias devem ser diversos em todos os aspectos: gêneros, etnias, experiências profissionais, maneiras de pensar, etc. O objetivo desta diversidade é ter como resultado decisões mais contextualizadas e abrangentes em termos de responsabilidade social.

Um corpo diretivo diverso e comprometido é tão fundamental para ajudar a companhia a articular e buscar seu propósito, como também responder questões que se tornam cada vez mais importantes para investidores e pela comunidade.

O autor também é enfático na forma a qual acredita que as empresas devam organizar sua estratégia de longo prazo. A companhia deve entender o impacto de suas ações e políticas nesta estratégia, como a estratégia escolhida se prepara para potenciais desafios e o contexto das decisões de curto prazo dentro da estrutura de longo prazo. Além disso, a estratégia escolhida também deve balancear o importante objetivo de desempenho financeiro sustentável e o impacto econômico-social possivelmente causado para se auferir este bom desempenho financeiro.

Esta estratégia de longo prazo não é imutável, escrita em pedra. É um processo dinâmico que envolve constantes feedbacks entre empresa e sociedade.

Qual o papel da empresa na comunidade que está inserida? Como ela gerencia seu impacto no meio-ambiente? A empresa está se esforçando para criar um quadro de funcionários diverso? A empresa está se adaptando às mudanças tecnológicas? A empresa está oferecendo treinamento e oportunidades suficientes aos seus funcionários para que os mesmos se adaptem a um mundo cada vez mais automatizado? A empresa utiliza economia comportamental e outras ferramentas para preparar seus empregados para a aposentadoria, fazendo com que eles invistam de maneira que os façam atingir seus objetivos pessoais?

Faz pensar.

Hugo Paixão Hugo Paixão

Analista de Research e Alocação

Bacharel em economia pela Universidade de Brasília e Planejador Financeiro CFP® certificado pela Planejar (Associação Brasileira de Planejadores Financeiros), atua há seis anos no mercado financeiro com passagens por instituições como Banco Modal e JGP Asset Management. Atualmente é analista de alocação da equipe técnica da Guide Investimentos.

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