No exterior, muitos investidores têm deixado o seu pessimismo de lado nos últimos dias, após preocupações (exacerbadas?) com relação ao crescimento global e à sustentabilidade dos mercados. Embora o cenário não tenha mudado radicalmente, é evidente que a recuperação das bolsas americanas e o alívio para os ativos de risco ao redor do mundo se deve àquilo que Jerome Powell, o atual presidente do banco central (BC) dos EUA, tem sinalizado para os próximos meses. Ao que tudo indica, foi música para os ouvidos de muitos investidores. Mas ficará até quando na cabeça dos investidores?

Após elevar as taxas de juros no último mês de dezembro — a quarta elevação de 2018 e a nona desde a saída da crise financeira —, o BC, chefiado por Jerome, sinaliza que será mais “paciente” no processo de normalização da política monetária. Jerome — ou simplesmente “Jay”, como muitos o chamam — fez um discurso “tranquilizador” na última sexta-feira (dia 4), e voltou a dizer, nesta semana, nas entrelinhas, aquilo que os mercados estavam ávidos por ouvir: é possível que tenhamos uma “pausa” nos próximos meses. Ou seja: é possível — e bastante provável aos olhos de hoje — que os Fed Funds Rates continuem estáveis nos próximos meses. Além disso, sinalizou que a diminuição do seu balanço de ativos pode sair do modo “automático”, e o ritmo pode diminuir. O mercado também estará muito atento a isto.

De alguma forma, o cenário atual se assemelha aos anos de 2006 e 2016. Lá, assim como parece ser o caso agora, o BC dos EUA subiu os juros e em seguida precisou colocar uma pausa nas seguintes elevações. Aliás, em 2016, após uma elevação de juros em dezembro de 2015, Janet Yellen, a então presidente do BC, demorou 12 meses até a seguinte elevação. Naquele momento, a China preocupava, e mostrou-se prudente esperar um pouco mais. Em ambos os casos, a pausa do BC foi sucedida por um forte desempenho das bolsas. Acontecerá o mesmo agora?

Se Jerome fizer a tal “pausa”, é possível, mas isto não parece ser o mais provável no atual cenário. Tentando manter a música tocando e o alívio na cabeça dos investidores, Powell reforçou, ainda ontem, o recado da semana passada: “Vocês devem antecipar que vamos ser pacientes, e assistir, e assistir e ver”. Foi repetitivo, mas a sua fórmula tem tido sucesso. Investidores têm reagido bem às sinalizações. O BC, após um discurso mais duro no final do ano passado, rendeu-se e escuta mais àquilo que acontece nos mercados. O tombo das ações no final de 2018 foi feio: em relação ao resto do mundo, o índice S&P 500 teve a pior correção desde 2011. Mesmo assim, na última década, a bolsa dos EUA supera o resto do mundo em mais de 100%. Haveria mais “gordura” para queimar.

Agora, ao contrário dos últimos episódios de 2006 e 2016, parece difícil imaginar que a China voltará a ganhar tração, e que a economia global terá mais um longo período de calmaria, como foi observado de forma clara ao longo de 2017. Dados recentes da China mostraram que o país está em desaceleração. Além disso, o montante de dívida no mundo — tanto pública quanto privada — é bem maior do que 10 anos atrás. Isto, é claro, coloca um freio nas intenções dos bancos centrais de normalizar as taxas de juros (como está acontecendo com o BC americano). Assim, embora Jerome Powell possa ter gerado um alívio de curto prazo nos mercados internacionais, não se surpreenda se a volatilidade voltar a aumentar e/ou mais correções vierem pela frente.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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