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No início deste mês, dois economistas americanos foram consagrados com o Nobel de economia de 2018. Em comum, ambos contribuíram para o melhor entendimento daquilo que acontece com as economias no chamado “longo prazo”. Paul Romer, por exemplo, incorporou as inovações tecnológicas nos modelos de desenvolvimento econômico. William Nordhaus, por outro lado, deu destaque às mudanças climáticas. Aqui, darei destaque ao primeiro. Afinal, quem foi Romer?

Romer começou a trabalhar na área de crescimento econômico no início da década de 1980. Naquele momento, economistas explicavam o processo de desenvolvimento através da acumulação de capital e trabalho. Simples assim. Reconhecia-se, no entanto, que havia “algo a mais”. Convencionou-se chamar de “produtividade” tudo aquilo que não se podia explicar com a simples acumulação destes dois insumos de produção. Ou seja: se não podemos explicar o crescimento de um país através da acumulação de capital e trabalho, este só poderia ter enriquecido se, com a mesma quantidade de insumos, agora consegue produzir mais. Mas como cresce a produtividade?

É exatamente neste ponto que as contribuições de Romer são importantes. Desenvolveu a chamada “Teoria de Crescimento Endógeno”, enfatizando que mudanças tecnológicas são o resultado do esforço de pesquisadores e empreendedores. Estes, por sua vez, respondem a incentivos, claro. Ou seja: tudo aquilo que os influencia – como taxação, impostos e/ou recompensas pelas suas ideias –, portanto, poderia afetar o longo prazo da economia. Desta forma, economistas passavam a conseguir explicar como se comportava – e evoluía – esta tal “produtividade”.

O conceito das “ideias” é um dos pontos mais interessantes de Romer. O seu paper de 1990 – “Mudança Tecnológica Endógena”, numa tradução livre para o português – foi um marco para a literatura econômica. O principal insight é o seguinte: as “ideias” são bens “não rivais”. Ou seja: usar mais uma determinada ideia não impede que outros também a usem. Pelo contrário, pode ser disseminada, contribuindo para o uso de todos.

Isto, diga-se de passagem, dá lugar aos chamados “retornos crescentes de escala”. O que significa isso? Ao dobrar os insumos e a quantidade (ou qualidade) das ideias, a produção mais do que dobraria. Isto é importante para quem estuda crescimento econômico. Afinal, para produzir mais – e o país continuar crescendo –, não era preciso continuar aumentando capital desenfreadamente, por exemplo. Mais do que isso: se pensarmos numa medida de PIB per capita, por exemplo, já não era preciso “dividir” o estoque de ideias entre todos, como precisa ser feito com insumos como capital e trabalho.

É claro que as contribuições de Romer para os modelos econômicos ainda são insuficientes para explicar, na íntegra, o padrão de crescimento dos países. Mas foi um avanço. Com o tempo, outras perguntas surgiram. Por exemplo, como promover o desenvolvimento da tecnologia? Como explicar o melhor uso dessas ideias por diferentes países? Qual o papel dos governos nisso tudo? Romer abriu uma importante avenida para que outros tantos pesquisadores continuassem a avançar na literatura econômica.

Em tempos de Guerra Comercial – e tantas outras tensões entre os países – vale ressaltar uma outra conclusão do paper de Romer de 1990. Segundo ele, “o comercio internacional pode atuar para acelerar o crescimento”. Afinal, contribuiria para a maior disseminação de conhecimento. Economias mais fechadas teriam mais dificuldade de incorporar as novas ideias, por exemplo. Romer nos ensinou a importância das ideias. Só não podemos esquece-las.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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