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O mundo está mudando

Os juros, e o papel de Jerome e de Mario

Grave estes nomes: Jerome Powell e Mario Draghi. O 1º é americano e o 2º é italiano. Ambos são banqueiros centrais. Eles serão os responsáveis pela “normalização” da política monetária de Estados Unidos e Zona do Euro, respectivamente. Ou seja: serão eles os responsáveis pelas elevações de juros que veremos à frente.

Quais têm sido os acontecimentos recentes? O que nos leva a acreditar neste “novo normal”? E quais as nossas perspectivas para os mercados internacionais?

Sobre os Estados Unidos…

Nas últimas semanas, os investidores têm se convencido de que o Banco Central americano (Fed) deve mesmo subir os juros à frente. Isto já vinha sendo sinalizado há algum tempo pelo próprio Banco, mas poucos o levavam a sério. No entanto, o mercado, nos últimos 2-3 meses, tem aumentado a probabilidade de o Fed subir 4 vezes os juros até o final de 2018.

Embora alguns considerem este ritmo como sendo “gradual”¹, não é pouca coisa: desde o final de 2015, tivemos apenas 5 elevações de juros. Mais: se desconsiderarmos este período mais recente, os juros haviam subido pela última vez em junho de 2006.

Como tenho dito nas últimas semanas², o mercado de trabalho mais aquecido deve, finalmente, fazer a inflação começar a subir. O Fed precisará reagir a isto, é claro. Vale dizer: o mercado vai se convencendo desta possível elevação de inflação. Se, em meados de 2017, precificava uma inflação implícita dos títulos de 5 anos entre 1,5-1,6%; agora, precifica algo ligeiramente acima de 2,1% ao ano.

Nesta semana, um relatório sobre o setor privado de fevereiro (relatório ADP) mostrou uma criação de 235 mil vagas no mês – número acima da média dos últimos 12 meses, que era de 185 mil. Se continuar neste ritmo, a taxa de desemprego continuará a cair. Aliás, hoje em 4,1%, há quem acredite que o desemprego irá para 2,5% até meados de 2019³.

Seria algo marcante: se o desemprego for para meros 2,5%, voltará à mínima histórica atingida em junho de 1953. Neste cenário de desemprego baixo, e que pode cair ainda mais, vale notar: o próprio Powell, mostrando preocupação com a possibilidade “superaquecimento” da economia, destacou na semana passada, no Congresso dos EUA, que o desemprego dos mais “escolarizados” já está em meros 2%! Ou seja: a taxa já é baixíssima!

Mais evidências: nesta semana, nos Estados Unidos, foi divulgado o “Livro Bege” – um relatório qualitativo, que analisa os 12 distritos do país. Além de considerar os dados disponíveis, o Fed considera esta publicação quando precisa tomar decisões. Nele, alguns relatos chamam a atenção reforçando a perspectiva de que a economia aquecida levará o Fed, inevitavelmente, a subir as taxas de juros.

 

“Em todo o país, foi observado um persistente aperto no mercado de trabalho e uma demanda crescente por trabalhadores qualificados”. Livro Bege, divulgado em março/2018

“A maioria dos distritos viu empregadores aumentarem os salários e expandirem os pacotes de benefícios em resposta às condições do mercado de trabalho”. Livro Bege, divulgado em março/2018

Embora os mais céticos digam que há boas razões – de médio/longo prazo – para pensar que a inflação seguirá baixa por tempo prolongado e/ou que as taxas de desemprego de hoje não são tão baixas quanto parecem, evidências recentes parecem indicar um panorama diferente. Aliás, a recente reforma tributária e a taxação das importações de aço e alumínio, por exemplo, são fatores que reforçam o viés de alta da inflação.

Algumas considerações finais: este processo de elevação de juros, ainda que possa ser visto como “gradual”, exige atenção. Não há nada pré-definido. Lael Brainard, do Fed, fez uma observaçãointeressante na última 3ª feira, 6 de março: a taxa de desemprego deve cair para níveis historicamente baixos. Esses tais episódios, nas últimas décadas, têm sido caracterizados por 2 eventos: desequilíbrios financeiros, no período mais recente, ou inflação mais alta, em décadas anteriores.

Sobre a Zona do Euro…

Embora a região esteja “atrás” dos EUA neste ciclo de normalização de juros, vemos um processo semelhante acontecendo por lá. Ou seja: economias mais fortes, aos poucos, têm feito – e continuarão a fazer – o BC diminuir os seus estímulos. A principal taxa de juros segue em zero, e desde que o BC começou com o chamado quantitative easing não houve elevações de juros. Mas as coisas estão mudando…

Diferentemente dos EUA, não espere elevações de juros neste ano na Zona do Euro. O mercado precifica, hoje, apenas 20% de probabilidade de isto acontecer, segundo dados da Bloomberg. Mas o BC europeu tem alterado, aos poucos, as suas sinalizações. Aliás, há indícios de que os juros possam começar a subir, por exemplo, a partir de 2019. Será uma transição mais lenta para este “novo normal”, de juros mais altos.

Olhando os acontecimentos recentes, vale destacar a última aparição de Mario Draghi, nesta 5ª feira, 8 de março. Em discurso, o presidente do BC fez uma análise positiva da economia e aproveitou para dizer que a instituição revisou o PIB de 2018 para cima, de 2,3% para 2,4%. Embora a inflação deva ficar em 1,4%, abaixo da meta oficial – descrita como “abaixo, mas próxima de 2%” –, a conjuntura atual mantém o BC “confiante, persistente, e paciente”.

O importante é que, aos poucos, o BC europeu começa a sinalizar que os tempos de estímulos pouco convencionais podem terminar. Bem notado pelo mercado, retirou de seu discurso oficial o chamado “viés expansionista” – a sinalização clara de que, a depender da conjuntura, o BC poderia ajustar em tamanho e/ou duração do quantitative easing (em outras palavras: poderia aumentar ou manter por mais tempo as compras mensais de títulos públicos e privados que já faz; hoje, as compras são de 30 bilhões de euros, mas já foram de 80 bilhões, por exemplo).

Em suma: o panorama mais animador na Zona do Euro também faz o BC da região começar a planejar uma transição. “A vitória ainda não pode ser declarada”, disse Draghi, tentando conter uma reação mais exagerada dos mercados. Mas o viés é claro: os juros também devem subir por lá, acompanhando uma economia que se recupera e empresas que têm mostrado bons resultados.

O recado final?

Os “fundamentos” de EUA e Zona do Euro parecem sólidos, e as perspectivas são favoráveis. “Sustos” podem acontecer, é claro, mas a visão é positiva para estes mercados. Considerando este cenário, após altas significativas das bolsas no período mais recente, é natural que investidores se tornem mais seletivos. Isto não quer dizer que não existam oportunidades.

 

Referências:

1W. Dudley, presidente do Fed de NY;

2Veja recentes textos como “É uma questão de cinema!”; “Uma nova realidade (americana)”; e “O Homem mais chato de Washington”, por exemplo;

3Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s Analytics;

4Discurso feito no Congresso Americano, dia 27 de fevereiro de 2018;

5Relatórios do BIS, por exemplo, tem destacado o excesso de oferta, e até efeitos da globalização para explicar os motivos de uma inflação surpreendentemente baixa;

6Análise do Fed de Atlanta, sobre a importância de considerar mudanças demográficas na análise das taxas de desemprego ao longo do tempo;

7Discurso feito em NY, no dia 06/março (“Navigating Monetary Policy as Headwinds Shift to Tailwinds”).

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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