O mercado também erra: dados de emprego e reações do FED

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“JOBS, JOBS, JOBS!”. No Twitter, foi assim que o presidente americano Donald Trump reagiu aos dados do mercado de trabalho, divulgados na última sexta-feira (3). Há motivos para comemorar: o mercado acionário está em alta, após quedas violentas no final de 2018, e a economia segue forte. Projeções de desaceleração econômica e receios de uma nova recessão parecem ficar para trás (ao menos por enquanto). Assim, os sinais vindos do mercado de títulos, e que até há pouco tiravam o sono de muitos investidores, também são deixados de lado. O curtíssimo prazo é dos otimistas? Em clima de euforia, a Casa Branca tem pressionado o FED (banco central) para que novos cortes de juros sejam feitos. Mas quais têm sido as sinalizações do FED? A reunião de política monetária da última quarta-feira (1) não foi um “não-evento”, como muitos esperavam. Neste texto, comento estes eventos. Como o “mercado” tem lidado com os seus erros?

Em abril, segundo dados oficiais, foram criados 263 mil empregos nos EUA, bem acima dos 190 mil esperados pelos analistas em Wall Street. Além disso, dados dos meses anteriores foram revisados para cima: considerando os últimos 3, a média de criação de empregos foi de 169 mil. O crescimento dos salários permaneceu estável, mas segue “forte”: 3.2% (comparação inter anual). Por último, o desemprego recuou de 3.8% para 3.6%, a menor taxa desde dezembro de 1969. Aqui, uma observação: a queda da taxa de desemprego também se deve à saída de pessoas da força de trabalho. Ou seja: deve-se não só à criação de empregos (que afeta o numerador), mas também à redução do total sobre o qual o número de desempregados é analisado (o denominador). Neste momento, a economia dos EUA segue “GREAT”!

Muitos líderes em Washington — incluindo o próprio Donald Trump — defendem que o FED corte os juros para acelerar ainda mais a economia. Esta tem sido uma constante nos últimos meses, evidenciando uma clara pressão política sobre Jay Powell (presidente) e demais integrantes do board. No mesmo dia da divulgação dos dados do mercado de trabalho, o vice-presidente Mike Pense afirmou: “Não há inflação […] Este é exatamente o momento, não apenas para não aumentar as taxas de juros, mas devemos considerar cortá-las”. E Larry Kudlow, conselheiro econômico da Casa Branca, disse acreditar que o FED estaria, de fato, considerando um corte de juros. A realidade, no entanto, tende a ser outra. Sem uma nova recessão ou severa desaceleração econômica nos EUA, o FED manterá o seu atual plano de voo: juros estáveis até que a inflação — transitoriamente abaixo da meta, segundo Powell — volte a subir para níveis mais confortáveis. Vale lembrar: a inflação considerada pelo FED está em 1.6%, abaixo da meta de 2.0%.

Na mesma semana (quarta-feira, dia 1), o FED teve a sua terceira reunião de política monetária de 2019. Sem projeções novas sobre a economia, e sem expectativas sobre mudanças na taxa de juros, deveria ter sido aquilo que muitos chamam de “não-evento”. No entanto, o mercado reagiu negativamente, e o índice S&P 500 recuou 1%. Analistas que, assim como a Casa Branca, acreditavam na possibilidade de cortes de juros, reviram as suas expectativas. Segundo dados da Bloomberg, o mercado reduziu a probabilidade de corte de juros até o final de 2019, após comentários de Powell. Antes próxima de 70%, recuou para aproximados 55%. Dizer que a inflação está baixa por fatores “transitórios” parece refletir uma postura de Powell mais “neutra”, e não sinaliza uma intenção de reduzir os juros em meio a uma economia aquecida. Se por um lado os juros não subirão nos próximos meses (probabilidade nula disto acontecer), também é verdade que atribuir uma probabilidade tão elevada aos cortes de juros era — e ainda parece ser — exagerado.

O mercado, às vezes, simplesmente erra. Parece algo óbvio, mas não é. Acreditar que é possível “bater” o mercado no longo prazo não é algo consensual na literatura econômica. Mas é o que muitos gestores de recursos fazem (de forma bem-sucedida): procuram ativos que não estão corretamente precificados e esperam até que o consenso migre a seu favor. De volta ao contexto atual, parece exagerado atribuir à fala de Powell — e às considerações sobre os componentes da inflação e seus efeitos “transitórios” — a correção pontual observada no mercado acionário. Muitos parecem ter acreditado demais no Twitter de Trump. À frente, o cenário-base mais razoável segue sendo a estabilidade dos Fed Funds Rates. Neste caso, analistas que ainda atribuem uma probabilidade alta aos cortes de juros neste ano tendem a se frustrar. E vale lembrar que “pequenas” frustrações têm levado o mercado a grandes “reações”.

 

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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