O irracional Trumpismo fiscal

tags Intermediário

Estamos no final da temporada de resultados das empresas listadas em bolsa e o mundo todo, inclusive o Brasil, irá olhar para os números das empresas americanas. Por que? Todos querem ver se o corte de impostos corporativos, de 35% para 21%, deu um grande impulso às empresas americanas e, principalmente, se elas voltaram a investir, dado que o investimento pode ser o grande motor do crescimento econômico. No final do dia, todos estão observando o radical corte de impostos que faz parte do “Trumpismo”, o pacote de políticas de Donald Trump. 

Mas parece que o efeito não foi aquele esperado. Primeiro que as grandes empresas sempre exploraram, com maestria, hiatos na lei, além de explorarem artimanhas contábeis (todas testando os limites da lei) para pagarem menos impostos. Logo, um corte grande de impostos pode ser de alguma ajuda para empresas menores, mas para as gigantes quase nada vai mudar. A Johnson&Johnson, por exemplo, disse que pagou 20,3% de impostos efetivos sobre seu lucro no primeiro trimestre de 2018, contra um pagamento de 20,7% para o mesmo período em 2017, ou seja, praticamente nada mudou.

Trump e a trupe de republicanos que o apoiam, bradaram que as empresas iriam usar a grana que sobraria para investimentos, mas não é bem o que parece. A gigante de máquinas Caterpillar teve um resultado excelente, bem acima do esperado pelo mercado, porém anunciou que usará boa parte do seu caixa para recomprar ações, isto é, o dinheiro vai apenas para o bolso dos acionistas da empresa.

Esses resultados indicam que os mercados gostaram do corte de impostos. Vale notar que mais alguma receita extraordinária foi gerada por mudanças sobre a tributação de lucros em paraísos fiscais que ajudou empresas como a Amazon e Apple a repatriar volumosos recursos que engordaram seus caixas, porém esse efeito é um one time only e só irá acontecer agora.

O grande ponto é que o corte não deu aquele gás na economia real que o presidente estava imaginando. Bom, pelo menos por enquanto nada aconteceu. 

Dados do PIB americano, que saíram na última sexta-feira, mostram que o investimento ainda não sofre os efeitos do corte. Ele cresceu a um ritmo de 6,1% ao ano nos primeiros três meses de 2018, enquanto no mesmo período do ano passado a taxa era de 7,2%. A taxa é menor hoje, após os cortes, do que ano passado. 

As grandes empresas listadas em bolsa disseram que irão investir mais, porém seus planos de recompra de ações são bem maiores que os planos de investir. No caso da Caterpillar, o dobro. Logo, o dinheiro irá muito mais para o bolso do acionista do que para a economia.

Esses anúncios de recompra de ações são positivos para o mercado, mas no longo prazo o governo Trump pode estar metendo o pé pelas mãos. Primeiro que o impulso fiscal pode acabar indo mais para o bolso dos acionistas do que se materializando na economia. Segundo que a economia americana está crescendo, sua taxa de desemprego já está abaixo da taxa natural (aquela que não aumenta a inflação) e o dinheiro que irá, de fato, para investimentos pode sobreaquecer a economia americana, fazendo com o que o FED – o Banco Central americano, levante os juros, o que irá desaquecer a economia para que a inflação não comece a subir acima de 2%, o alvo que o FED tem estabelecido.

Essa subida mais forte de juros pode ser prejudicial, pois como a economia já vinha em uma saudável tendência de crescimento. Os juros subiriam em velocidade menor do que poderão subir agora com os esteroides da reforma fiscal. Além do efeito de um pouso forçado da economia americana, também existe um efeito negativo que se agrava para o Brasil, da alta do dólar em relação ao real.

 

O grande ponto é que Trump pode estar deixando de arrecadar recursos valiosos para a economia americana, dado que a dívida pública de lá é uma das maiores do mundo, além de seu custo estar subindo (os títulos longos do tesouro americano já estão pagando 3%, antes pagava quase zero). Tudo isso para que o dinheiro vá para o bolso de acionistas ricos, em sua grande maioria, e não para a economia como um todo.

Pode ser que o governo só esteja redistribuindo recursos do governo para os mais ricos, sem que exista real canalização para investimentos. Além do conflito distributivo que a medida gera, existe ainda outra discussão sobre os investimentos. Dado os custos de se produzir nos Estados Unidos, valerá a pena continuar investindo em casa? Ou é melhor investir fora do país, onde produzir é mais barato?

Além de todas essas questões, como já dito, Trump pode estar apenas colocando lenha na desaceleração e não na aceleração da economia americana, pois com juros maiores, o custo de se investir aumenta, uma vez que o crédito também fica mais caro. Além do fato de colocar em risco empresas que emitiram dívidas pós-fixadas, nos últimos anos, quando a taxa de juros era zero, fazendo com que o custo de lidar com as dívidas possa sufocar as empresas e até mesmo levar algumas a falência. Sem contar que o custo de empréstimos bancários às pequenas firmas ficará ainda mais elevado.

Logicamente ainda é cedo para falar se as medidas de Trump irão surtir algum efeito positivo sobre a economia, mas já é claro que existem mais riscos do que benefícios a serem colhidos.

Victor Candido Victor Candido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

3197 visualizações

relacionados

Bitnami