O homem que nunca pegou um empréstimo

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Nassim Nicholas Taleb, escritor best seller e uma espécie de filósofo pop do mercado financeiro, título que ele com certeza rechaçaria, disse recentemente que nunca pegou emprestado um centavo sequer, em toda a sua vida. Segundo Taleb, os romanos diziam que quem deve, não é uma pessoa livre. Mas ele tem algo a lhe ensinar, além de que um empréstimo tirará sua liberdade. Taleb quer que o mundo tome riscos e coloque a própria pele como garantia de suas ações. Segundo ele, esse é o único jeito do mundo ser um lugar melhor e mais justo.

Em seu novo livro, Skin in The Game – Hidden Asymmetries in Daily Life, em tradução livre: Pele em jogo – assimetrias da vida cotidiana, Taleb quer que você entenda que ações têm consequências e que você sempre deveria pagar o preço ou receber o benefício de tudo que você faz, se cercar de pessoas e eleger políticos que entendam esse princípio que o autor considera básico. 

capa do livro skin in the game

Skin in the Game, o quinto livro de Taleb, faz parte de uma sequência de volumes que o autor denomina de coletânea INCERTO. Cada um dos livros traz ensinamentos e reflexões de como sobreviver em um mundo onde o caos, incerteza e riscos dominam praticamente todos os aspectos de nossas vidas. O mais famoso deles é “A Lógica do Cisne Negro”, onde eventos completamente imprevisíveis possuem efeitos devastadores e que duram por décadas. Por exemplo, a crise de 2008 e até mesmo o atentado de 11 de setembro. 

A mensagem deste livro é mais simples do que a dos anteriores: Você só deve opinar ou aconselhar alguém sobre algo que você faz ou fez para si próprio. Se eu te disser para comprar o carro X, você só deveria comprar se eu tiver o tal carro X na garagem. Ou se uma empresa de análise de ações dizer que a cesta de ações X, Y e Z são as mais quentes do ano, você deveria ligar e perguntar se cada uma das pessoas que assinaram a recomendação possuem tais ações em seus portfólios, caso contrário, segundo Taleb, você deve mandar todos para o inferno.

Taleb acredita que opiniões e análises emitidas por interlocutores que não tenham absolutamente nada a perder caso estejam errados, não possuem valor nenhum, e, em casos extremos, geram enormes consequências para a sociedade.

Os grandes vilões do livro são os analistas que permeiam a imprensa global, os famosos especialistas. Que emitem opiniões que irão reverberar no meio político, podendo levar a decisões de larga escala. Como no caso de Thomas Friedman, que advogou que a invasão do Iraque era necessária e que seria uma guerra rápida, sem muitas mortes e que traria a democracia à antiga terra babilônica. Resultado: Milhares de soldados mortos, quase um trilhão de dólares gastos e uma guerra que se arrasta por mais de 15 anos. E o que aconteceu com os analistas que pediram pela guerra? Absolutamente nada. Outra recomendação de Taleb é que generais tenham seus filhos no exército, quando tomam decisões sobre guerras. Assim como era nas civilizações helênicas (Atenas e Esparta). 

Para Taleb, existe menos pele em jogo hoje no mundo do que havia a 50  ou 20 anos atrás. Mais pessoas determinam o destino dos outros sem ter que pagar as consequências. Pele no jogo significa que você possui seu próprio risco. Isso significa que as pessoas que tomam decisões em qualquer caminhada da vida nunca devem ser isoladas das consequências dessas decisões e ponto final. Se você é um mecânico de helicóptero, você deveria ser um piloto de helicóptero. E se você está tomando decisões econômicas, você deve arcar com o custo se estiver errado.

98% dos americanos – encanadores, dentistas, motoristas de ônibus – têm pele no jogo. Nós temos que nos preocupar com os 2% – os intelectuais e políticos que tomam as grandes decisões que não têm pele no jogo e estão bagunçando tudo para todos os outros. 30 anos atrás, a Assembleia Nacional Francesa era composta de donos de lojas, fazendeiros, médicos, veterinários e advogados de pequenas cidades – pessoas envolvidas em atividades diárias. Hoje, é inteiramente composto por políticos profissionais – pessoas que acabaram de se divorciar da vida real. E o que dizer do Brasil? Onde até mesmo aqueles que vieram de grupos profissionais se tornaram políticos por ofício e se distanciaram completamente de suas origens?

O livro é bem fácil de ler, ainda não tem em português, mas como todos os livros de Taleb já foram traduzidos, é certo que uma edição nacional já esteja no forno. O autor permeia o livro de exemplos, às vezes em demasia, mas não torna o texto repetitivo, pois os exemplos são sempre muito alegóricos e interessantes. As mais de 250 páginas do livro com certeza valem a pena. 

Sobre o autor: Nassim Nicholas Taleb passou 21 anos como trader, tomando risco em um grande banco de investimentos (que segundo o próprio autor não existe mais, pois tomou riscos desnecessários), antes de se tornar um pesquisador em filosofia, matemática e aplicação de teoria estatística avançada em problemas cotidianos. Atualmente, ele é professor distinto da New York University’s Tandon School of Engineering. Seus livros já foram traduzidos para mais de 36 idiomas. 

Victor Candido Victor Candido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

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