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O Fracasso de Macri e o Retorno do Peronismo

No dia 11 de agosto, quando os argentinos foram às urnas nas eleições primárias para decidir quem seriam os candidatos para outubro, o mundo se deparou com um resultado notadamente surpreendente.

Macri, o atual presidente, sofreu uma derrota acentuada para seu candidato de oposição, Alberto Fernadéz, que concorre em conjunto à ex-presidente Cristina Kirchner como vice. Com 47,66% dos votos, uma presidência Peronista se tornou quase que inevitável. A perspectiva da volta de um governo Kirchnerista promoveu forte sentimento de aversão entre investidores: a bolsa de Buenos Aires entrou em queda livre, perdendo aproximadamente 30% de seu valor, enquanto o peso argentino disparou para níveis astronômicos, depreciando-se em 16,96%.

Para compreender os motivos por trás deste comportamento altamente volátil, devemos primeiro procurar entender o que é o Peronismo, quais foram seus impactos econômicos e por que os argentinos querem sua volta. A partir disto, formaremos uma análise acerca do que esperar deste (provável) novo governo que tomará posse em dezembro.

O Peronismo, como o próprio nome indica, integra todos os pensamentos e práticas políticas advindas dos governos de Juan Domingo Perón, e sua esposa, Evita, ambos estadistas do país durante a segunda metade do século XX.  A ideologia política de Perón, em seus primórdios, visava fortalecer a condição social da classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que incentivava o papel do estado como principal vetor da industrialização. Para fins de análise comparativa, Perón está para a Argentina assim como Vargas está para o Brasil.

A questão fundamental, porém, é que esta ideologia política, ao contrário do que ocorreu com o Getulismo no Brasil, se alastrou ao longo do tempo e continuou ditando o rumo das políticas públicas na Argentina. Desde a redemocratização de 1989, o cargo de executivo foi exercido por nada menos que quatro indivíduos filiados ao Partido Judicialista, principal componente da ala peronista.

A filosofia de Perón instituiu para dentro do consciente coletivo argentino a figura do estado como benfeitor. A história econômica da argentina está arraigada de exemplos onde o estado promoveu recorrentes aumentos no gasto público, melhorando o dia-a-dia das pessoas, ao custo da sustentabilidade fiscal de longo prazo.

É ideia reconhecida dentro da literatura econômica que a estabilidade da dinâmica de endividamento do setor público tem papel fundamental sobre a formação das expectativas de inflação e o investimento. Quando as contas públicas se encontram em trajetória de ordem, (i) expectativas ficam balizadas, (ii) investidores tem maior confiança para investir e o trabalho das autoridades monetárias fica mais fácil. Se o governo não implementa esforços para colocá-las em ordem, as expectativas de inflação e a confiança dos agentes destoam de seu nível almejado.

Acoplado à imprudência fiscal que sempre caracterizou os governos peronistas, está a implementação de graves erros de política monetária. Quando a inflação se acelerou de forma vigorosa durante o ciclo de expansão a partir da metade da década de 2000, ao invés de promover um ajuste fiscal e implementar uma política monetária restritiva, a então presidente Kristina Kirchner maquiou as estatísticas, estatizou a petrolífera YPF, congelou uma série de preços e instituiu uma bateria de medidas para controlar o fluxo de capitais. Com isto em mente, torna-se clara a razão pela qual a inflação argentina sempre demonstrou um alto grau de inércia e o crescimento econômico nunca retornou.

Uma mudança de postura ocorreu quando Maurício Macri, candidato de cunho liberal nas eleições de 2015, decidiu implementar um programa de austeridade para colocar em ordem as contas públicas. Baixo seu mandato, o déficit primário do governo foi lentamente se revertendo em direção a um patamar positivo. Em conjunto a isso, Macri pretendia implementar outras reformas estruturais, como a da Previdência, e uma série de medidas pró-mercado, como uma reforma trabalhista e uma redução de impostos para setores não-competitivos. Além disto, em seus 100 primeiros dias de governo, retirou chamado cepo cambiário; as restrições sobre o fluxo de capitais.

As pretensões do presidente, porém, não se concretizaram devido à entraves políticos; suas promessas de retomar o crescimento, diminuir o desemprego e controlar a inflação, tampouco. Ao invés de fazer a Argentina passar por um tratamento de choque, o presidente optou pelo gradualismo. Na contramão do que preconizava sua plataforma de campanha, não resistiu ao apelo populista e congelou preços para tentar estabilizar a inflação, reinstituiu controles cambiais e foi forçado a postergar o pagamento da dívida pública, além de contrair um impagável empréstimo do FMI.  O eleitorado argentino, do rico até o pobre, ficou desiludido, resultando em uma vontade política que pediu a volta do Peronismo no dia 11 de agosto.

Ao contrário do que pareceu demonstrar o movimento de mercado no dia das primárias, Alberto Fernández não se posiciona como um estadista extremo. Algumas de suas propostas, como a manutenção da continuidade pela busca do equilíbrio fiscal, são respaldadas pelo seu futuro Ministro da Economia, Guillermo Nielsen. Além disto, pretende-se avançar com um novo marco regulatório para o petróleo e gás que visa reduzir o ônus tributário do setor.

Porém, os planos relacionados ao combate à inflação crônica e ao alto desemprego que assola a Argentina não parecem ser muito convincentes. O futuro governo pretende fazer isto por meio de um acordo social entre empresários e sindicatos. A ideia é atraente, porém duvidosa. Um raciocínio parecido foi utilizado para embasar a implementação do Plano Cruzado no Brasil, que, como sabemos, fracassou. Gerenciar e alinhar os interesses dos grupos da sociedade a partir de um player central é tarefa quase que fadada ao fracasso, pois nada garante que os membros cumpram suas partes. Ao contrário de Macri, Fernández comunicou que rejeita a implementação de uma reforma trabalhista para conceber a criação de empregos. Em sua visão, tal reforma causaria uma precarização do trabalho. Ao invés disto, pretende, também neste âmbito, estimular um acordo entre patrões e trabalhadores para preservar os salários e o emprego.

Para conter a dinâmica altamente depreciativa do câmbio, Fernández pretende executar políticas que alavanquem as exportações e gerem um influxo de dólares para dentro do país. O problema com isto, porém, é que em um ambiente de retração de demanda global, não se pode pedir muito das exportações.  Além disto, pretende executar políticas de substituição de importações para que a Argentina fique menos dependente de produtos importados, o que, em teoria, causaria uma menor demanda por dólares que acabaria apreciando o peso. A inconveniência desta medida surge a partir de seu efeito de longo prazo, onde a produtividade da economia sofre por que a economia não tem estrutura para produzir bens de capital suficientemente eficientes.

Contudo, somente o tempo dirá quais serão os verdadeiros efeitos de uma nova presidência peronista. Memórias das presidências Kirchneristas e o fracasso parcial de Macri promoveram um enorme sentimento de aversão entre investidores. O comportamento mais moderado de Fernández parece estar dando, parcialmente, os sinais corretos. De qualquer forma, em tempos como estes a cautela e a incerteza são reis.

Alejandro Ortiz Cruceno Alejandro Ortiz Cruceno

Equipe Econômica

Atualmente cursando o último ano de Ciências Econômicas no Insper. Sua principal área de pesquisa é Macroeconomia, com principal interesse em política fiscal e monetária.

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