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O FED não seguirá as regras: há motivos para isto

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O banco central dos EUA (FED) se reúne para discutir a sua política monetária nos próximos dias 30 e 31 de julho. Espera-se que neste — e, provavelmente, no próximo encontro, dias 17 e 18 de setembro — a taxa básica de juros da economia possa ser reduzida, tentando conter os riscos crescentes no cenário macroeconômico. Neste contexto, as bolsas internacionais batem recordes de alta, e investidores recebem bem tais sinalizações. Tendo tido algumas oportunidades para fazer o mercado revisar as suas expectativas quanto ao futuro da política monetária, o presidente Jerome Powell só as reforçou nas últimas oportunidades. Agora que o viés está claro, surgem outras perguntas: (i) até quando irão os cortes de juros nos EUA? (ii) além dos cortes, haverá uma mudança ainda mais brusca na forma de atuar do banco central? Estas perguntas são importantes para entender até quando irá o boom dos mercados internacionais.

Na semana passada, dois eventos foram analisados de forma cuidadosa pelos investidores e merecem algum destaque dentro deste contexto: no dia 10, quarta-feira, o FED divulgou as “minutas” da sua última reunião de política monetária (dias 18 e 19 de junho) e o presidente Powell foi ao Congresso apresentar o relatório sobre política monetária. O viés do banco central é claro, e já consolidado ao que tudo indica: os juros cairão nos próximos meses. Isto tem contribuído para um maior apetite por risco dos investidores, alta das bolsas internacionais e um dólar relativamente mais fraco. Nos últimos dias, o índice S&P 500 chegou a superar os 3 mil pontos, por exemplo; e isto deve ser levado em consideração quando analisarmos os mercados brasileiros. Seja como for, a postura e as sinalizações do FED agora aquecem outras discussões, não só o número de cortes de juros, mas também possíveis estímulos que não se restringem à taxa básica de juros. Ambos os eventos do último dia 10 fornecem pistas para entender a visão da instituição.

O relatório apresentado ao Congresso é uma fonte de informação interessante para quem está atento ao banco central dos EUA. Embora não termine com alguma “recomendação” clara sobre o futuro das taxas de juros, os exercícios numéricos e as regras de política monetária utilizadas para ilustrar e analisar o momento atual acabam dando pistas sobre a visão dos integrantes do FED. Temos que 4 das 5 “regras” utilizadas no último relatório são uma versão da famosa “regra de Taylor”, e indicam que o patamar apropriado para os juros estaria entre 2.25-3.50% ao ano. Ou seja: hoje, com os juros entre 2.25-2.50%, não haveria, de acordo com estes exercícios, muito espaço para reduções adiante. Como analisar estes números à luz das sinalizações mais recentes do FED? Há espaço para que ele continue a ser mais “dovish” (pró-estímulos) do que os exercícios sugerem?

Segundo o relatório do FED, há momentos em que o balanço de riscos do cenário macroeconômico justifica uma resposta diferente do banco central. Ou seja: há momentos em que devemos desviar do “livro-texto”, fazendo ajustes que nos lembram que a Economia é uma mistura de Ciências Exatas e Humanas. Aliás, dado o cenário atual, o vice-presidente do FED, Richard Clarida, tem tido que a atual situação se assemelha à de 1995 e 1998. Em ambas as ocasiões, o FED cortou os juros em 75 pontos base (de 25 em 25 pontos, isto equivale a 3 cortes de juros). Porém, sem condições financeiras tão apertadas como naqueles episódios, há quem acredite que um corte de 50 pontos já seria o suficiente. É difícil, no entanto, descartar cortes maiores adiante. O próprio mercado, muito mais agressivo em suas apostas, espera ao menos o dobro disto até o final de 2020, por exemplo. Como pano de fundo, estão os receios quanto à guerra comercial, e possíveis efeitos mais duradouros deste conflito.

Além disso, parece importante analisar a inflação nos EUA. Abaixo da meta de 2% do FED, esta tem sido descrita há tempos como “transitória”, como se fosse o reflexo de choques que, mais cedo ou mais tarde, se dissipariam. O próprio relatório do FED continua a descreve-la desta forma, sugerindo que não haveria motivos para maiores preocupações e, portanto, para adotar mais estímulos à economia. Mas há indícios de que a interpretação possa estar mudando: Powell, em seus comentários, não mais a descreve como “transitória”, e deixou claro que o mercado de trabalho ainda não está superaquecido. Se considerarmos o longo período em que a inflação está abaixo da meta oficial, o relatório sugere que os juros deveriam estar ao redor de zero. Desta forma, a visão atual sobre a inflação indica que o FED pode, de fato, se desviar das “regras”, adotando cortes que em outras circunstâncias não seriam adotados.

Em suma: há motivos para esperar que os cortes de juros do FED ultrapassem os 50 pontos base — ou até mesmo 75 pontos base — nos próximos 12-18 meses. Isto seria o “mínimo” para afastar os receios de uma desaceleração econômica mais forte ou até mesmo uma nova recessão do radar dos investidores. Mas não se esqueça: as tensões comerciais e a atual visão sobre a inflação podem acabar contribuindo para outros cortes de juros, indo na direção mais agressiva que muitos no mercado esperam. Nesta tendência, os mercados internacionais ainda se beneficiam no curto prazo. Mas é importante lembrar que parte deste movimento é um reflexo das expectativas que, de um momento ao outro, podem mudar. Será importante continuar analisando como evolui a visão do FED vis-a-vis a visão dos investidores.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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