O Fed e o buffet “all-you-can-eat”

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As famosas “minutas” do banco central americano (FED) foram divulgadas na semana passada, dia 20 de fevereiro. O documento, que aborda as discussões da sua última reunião de política monetária, era esperado com ansiedade pelos investidores. Este acabou sendo bem recebido e contribuiu para o bom desempenho das bolsas. O índice S&P 500, por exemplo, terminou aos 2.792, acumulando uma alta de aproximados 0.8% na semana passada. Dada a variedade de suas sinalizações para aquilo que fará nos próximos meses, pode-se dizer que o FED se assemelha àquele típico almoço de “buffet” no estilo “all-you-can-eat”. O que isto quer dizer? E quais foram os destaques da recente comunicação do FED?

O documento do FED encarrega-se de dar mais detalhes sobre a última decisão da instituição. É um momento para dar mais transparência, e muitas vezes é utilizado para reforçar e/ou corrigir algum mal-entendido entre banco central e mercado. Dada a importância da última reunião de política monetária (dias 29 e 30 de janeiro) — na qual a instituição mudou a sua comunicação de forma brusca, como poucas vezes se viu na História recente —, era um documento mais importante do que de costume. Investidores queriam mais detalhes sobre as razões por trás das mudanças do FED. Em especial, dois temas: (1) juros que devem permanecer estáveis e (2) menor redução do seu balanço de ativos.

Sobre as taxas de juros

“Muitos participantes (do comitê do FED) sugeriram que ainda não está claro quais ajustes de juros serão apropriados para este ano”. Mais: “vários destes participantes argumentaram que elevações possam ser necessárias apenas se a inflação ficar acima do esperado”. Por último: “Outros vários participantes indicaram que, se a economia evoluir conforme o esperado, será apropriado elevar as taxas de juros no final deste ano”. Em suma: o FED parece dividido entre aqueles que querem ver sinais de mais força da economia e da inflação, e aqueles que, se não houver nenhuma surpresa e/ou grande novidade, acreditam que os juros deveriam voltar a subir a partir do final deste ano.

Seja como for, o viés do FED segue indicando uma probabilidade maior de as taxas de juros subirem ao invés de caírem num futuro não muito distante. Isto contrapõe-se às expectativas de alguns investidores, que enxergam uma maior probabilidade de o próximo movimento da instituição ser no sentido contrário. Talvez tenha sido exatamente por reforçar este viés “altista” que as taxas de juros das Treasuries de 2 anos, logo após o anúncio das minutas, tenham subido e alcançado os 2.50% ao ano, e o dólar tenha se fortalecido. É evidente que o desempenho mais positivo das bolsas desde as quedas registradas em dezembro de 2018, somado aos bons resultados das empresas no último trimestre do ano passado, ajudaram o FED a manter este leve viés em direção à normalizações de suas políticas.

Sobre o balanço de ativos

“Praticamente todos os participantes acreditam que será desejável anunciar um plano sobre o fim da redução dos ativos em poder do FED já no final deste ano“. Nos últimos encontros do FED, este foi um tema de grande importância, e parece haver alguma urgência com relação à questão. Afinal, enquanto o balanço de ativos é reduzido a política monetária torna-se mais “restritiva”. Para efeitos finais, de forma simplista, é como se os juros estivessem subindo. Vale lembrar: durante o período do “quantitative easing” — uma política lançada no pós-crise, que visava reduzir os juros de longo prazo da economia —, o balanço do FED passou de 900 bilhões de dólares em 2008 para 4.3 trilhões de dólares no final de 2014 (um número equivalente a quase 25% do PIB!). Já caiu para aproximados 3.85 trilhões e, se o atual ritmo for mantido, atingirá um patamar inferior aos 3 trilhões até o final de 2020. Seja como for, está claro que o nível pré-crise não será atingido.

Os mercados continuarão atentos às sinalizações do FED, e tudo indica que os juros de curto prazo continuarão por mais tempo no atual patamar (2.25-2.50%). A incerteza quanto à evolução da taxa de juros a partir de 2020 seguirá elevada, e dependerá do ritmo da economia e da evolução da inflação, como alguns dirigentes já comentaram. É evidente que FED está dividido, reagindo a movimentos de curto prazo dos mercados, e sem muita nitidez sobre o cenário de médio prazo. É como se fosse uma pessoa indecisa num almoço “buffet”, sem saber o que comer, e se reagir aos impulsos de curto prazo ou às nem-sempre-previsíveis consequência de médio prazo. O resultado mais “normal” nessas situações? Um pouco de tudo.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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