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O FED deveria satisfazê-los

No meu último texto para o blog, comentei sobre as recentes mudanças de sinalizações do FED (o banco central dos EUA). Isto é um tema relevante, não só para os investidores nos EUA, mas também para o resto do mundo. Tudo aquilo que o FED disser e/ou sinalizar fará “preço” e certamente contribuirá para movimentos nos ativos locais. Hoje, após idas e vindas, podemos dizer que o mercado espera 3 cortes de juros até o final de 2019 — algo impensável há pouco mais de 2 semanas. Fazer este movimento e parar por aí é algo pouco usual na história recente da instituição, e o único paralelo é o de 1995, quando Alan Greenspan estava no comando da instituição. Considerando os riscos atuais, o FED deveria satisfazer os mercados? O que é o mais razoável a ser feito?

As sinalizações do FED ainda chamam a minha atenção, e volto a destacá-las: (1) em dezembro do ano passado, a instituição previa 2 altas de juros em 2019, de 2.25-2.50% para 2.75-3.00% ao ano; (2) em março deste ano, passou a sinalizar juros estáveis, e; (3) agora, investidores apostam em cortes até o final de 2019, após o presidente Jerome Powell ter dito que está “pronto para agir”. Se considerarmos aquilo que o mercado precifica, podemos dizer que se esperam 3 cortes de juros até o final de 2019. Há 2 semanas, isto parecia impensável. Vale também destacar que, desde o final da era Paul Volker (presidente do FED de 1979 a 1987), apenas em 3 circunstâncias o FED cortou os juros 3 vezes e parou por aí (nas demais, os cortes são maiores, tentando conter evidentes recessões econômicas em que o país se encontrou). Estes episódios aconteceram após (1) o Black Monday, em 1987; (2) o colapso do hedge fund Long-Term Capital, em 1998 e; (3) no final de 1995, sob o comando de Alan Greenspan, antecipando aquilo que poderia ter sido uma nova recessão. Ou seja: hoje, sem pontuais eventos tendo acontecido, o único paralelo recente condizente com a aposta do mercado seria com o de 1995.

A razão para explicar estas mudanças de comportamento do FED (e do mercado) é bastante simples: a economia global não está nos seus melhores momentos, e Donald Trump e Cia. seguem flertando com uma guerra comercial com a China e outros países. Além disso, aquilo que tem puxado a economia dos EUA nos últimos períodos dificilmente continuará contribuindo à frente. Mas, ainda assim, é surpreendente que o FED e o mercado estejam reagindo a um cenário que ainda não começou, nem de perto, a se concretizar. É verdade que o mercado de trabalho mostrou uma criação de pífios 75 mil empregos em maio, bem abaixo da média recente, mas ainda não se pode dizer que a economia está muito fraca e/ou claramente à beira do precipício. Estes dados de curto prazo podem ser bem voláteis, diga-se de passagem. Ou seja: a única coisa que explica tais reações do FED e do mercado é uma crescente expectativa de desaceleração econômica nos próximos 12-24 meses.

Combater uma próxima crise econômica não será nada fácil, sem os instrumentos que normalmente são utilizados pelo banco central para combatê-las: espaço para cortar juros. É por isto que no meu último texto enfatizei que, “em meio aos atuais riscos, o maior deles é o de insistir na paciência”, fazendo referência à necessidade de cortes de juros. Aliás, esta também é uma posição do economista Larry Summers, que defendeu, num artigo para o The Washington Post, a necessidade de o FED agir rápido, e se antecipar àquilo que parece ser uma desaceleração. Segundo ele, “o Fed normalmente corta as taxas [de juros] em 5 pontos percentuais em resposta à recessão e, com taxas agora abaixo de 2,5%, não há nada que se aproxime dessa quantia disponível”, dando um argumento a favor de uma ação imediata.

A revista The Economist desta semana destaca num artigo estas recentes sinalizações do FED, e discute se os membros da instituição deveriam “ouvir” o mercado. Segundo a revista, quanto mais o FED responde ao mercado, menos ele deveria interpretar estes “sinais” ou “recados” vindos dos investidores como sendo “confiáveis” e “verdadeiros”. Dito de outra forma: “Se o FED quiser coletar informações úteis dos mercados, não poderá [sempre] satisfazê-los”. Concordo. Ainda assim, no atual cenário, o risco de não fazer nada é maior do que o de satisfazer o mercado, mesmo que isto implique numa menor capacidade de extrair dos investidores os “verdadeiros sinais” em próximos episódios. Ao ponderar os riscos, a própria The Economist concorda com Summers e o que falei no meu último texto. Os mercados querem e esperam algo do FED. O FED deveria satisfazê-los.

 

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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