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O Dia Depois do Feriado: bolsas e juros no exterior

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Na véspera do Dia da Independência nos EUA, as bolsas internacionais terminaram em altas generalizadas, numa continuação do clima de euforia entre investidores. O curtíssimo prazo segue sendo dos otimistas e expectativas de políticas monetárias expansionistas por mais tempo — desta vez, especialmente na Europa — contribuem para renovar as máximas nos mercados. Estamos, certamente, na tal “fase do alívio”. Vale entender os motivos que têm levado as bolsas às alturas, e ao rali dos títulos soberanos no exterior. Lá fora, há motivos para comemorar o feriado?

O índice acionário americano S&P 500, por exemplo, fechou esta quarta-feira (3) com ganhos de 0.8%, muito próximo de ultrapassar a marca dos 3,000 pontos pela primeira vez na História. Os índices Dow Jones e Nasdaq também fecharam no azul. Na Europa, o índice Stoxx 600 subiu 0.9%, atingindo o seu maior nível desde junho de 2018. De modo geral, o clima internacional segue sendo de euforia. Para alguns, já parece ultrapassar o “razoável”. No caso dos EUA, vale a pergunta: as empresas conseguirão atingir aquilo que delas se espera nos próximos trimestres? É curioso notar que as projeções de lucro têm recuado nas últimas semanas, e diante te uma expectativa de desaceleração da economia americana, será difícil imaginar que as margens das empresas aumentará adiante. Segundo uma matéria da Bloomberg, 80% das empresas listadas no S&P 500 já revisou a estimativa do seu lucro para baixo.

A véspera do feriado americano foi marcada por uma expectativa de que a política monetária mundo afora continue expansionista por mais tempo. Ou seja: a despeito dos (meus) receios quanto à capacidade que as empresas terão para “satisfazer” os acionistas nos próximos trimestres, o mercado estava atento àquilo que pode acontecer com as políticas dos principais bancos centrais do mundo. Em especial, investidores reagiram de forma positiva à nomeação de Christine Lagarde, atualmente no FMI, para suceder Mario Draghi no comando do ECB (o banco central europeu). Lagarde é vista como “dovish” (a favor de estímulos monetários), e a sua indicação implicou, é claro, na não-nomeação do alemão Jens Weidmann, visto como “hawkish” (menos favorável aos estímulos monetários). Foi um alívio, e mais um motivo para sustentar os ganhos de curto prazo nas bolsas internacionais. Seja como for, é um assunto importante, e a imprevisível escolha do substituto de Draghi era algo que, mais cedo ou mais tarde, acabaria fazendo preço nos mercados.

No mercado de renda fixa, a queda das taxas dos títulos soberanos de diversos países — ou, de forma análoga, a elevação do preço dos títulos — é um reflexo destas expectativas quanto àquilo que se espera dos bancos centrais internacionais. Nos EUA, os juros dos títulos de 10 anos recuou, agora em 1.95% ao ano, aproximadamente — a mínima dos últimos 3 anos. Na Alemanha, a mesma reação: os juros dos papéis soberanos de 10 anos atingiram um novo recorde de baixa, agora em -0.399%. Em suma: os investidores precificam políticas monetárias expansionistas por mais tempo (juros baixos por mais tempo, de modo geral). Eles “querem mais” dos bancos centrais, e é exatamente por isto é que continuará sendo importante monitorar os próximos passos destas instituições.

Menos condizente com este quadro de euforia e alívio, seguem sendo os sinais vindos do mercado de renda fixa dos EUA. Afinal, a curva de juros segue “inclinada” — um clássico previsor de recessões que, até aqui, tem sido desconsiderado pela grande maioria. Um artigo desta semana do Financial Times destacou que esta “inversão” — os juros dos papéis soberanos de 10 anos menos os juros dos papéis de 3 meses — já é observada há mais de 1 mês. Neste momento, esta diferença está em -0.26%, aproximadamente. Assim, é razoável dizer que estes sinais vindos da curva de juros — e a dificuldade que as empresas terão em “satisfazer” os seus acionistas no futuro — serão levados mais a sério se os dados da economia e do mercado de trabalho começarem a desapontar. É neste contexto que o relatório de empregos de junho, divulgado nesta sexta-feira (5), ganha importância. Em suma: há motivos para comemorar o Dia da Independência. Mas isto não quer dizer que não haverá motivos para nos preocuparmos na volta do feriado.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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