O Brasil, o comércio mundial e vírus

O comércio internacional possibilita a extração de eficiência econômica através da especialização e de ganhos de escala. Como resultado, pelo menos no mundo ideal, há um ganha-ganha generalizado, onde obtêm-se mais com menos.

 

Mais especificadamente, como bem expôs o economista inglês David Ricardo no século XIX, mediante o processo de concentração da produção naquilo em que um país tem de mais eficiente, ele pode liberar seus pares comerciais a fazerem o mesmo, elevando a produção global de todos os bens a custos mais baixos.

 

Obviamente, nesse processo de especialização, o Brasil não está condenado a ser um mero produtor de commodities de baixo valor agregado, tal como o foi durante os ciclos da cana-de-açúcar e do café. Com efeito, com um enorme mercado internacional à vista, pode fazer sentido investir em tecnologia, conquistar novas fronteiras agrícolas – tal como o cerrado – e diversificar sua exportação a ponto agregar à sua pauta de exportação bens primários com alto conteúdo tecnológico.

 

Há também o caso das economias Asiáticas, que nos últimos 30 anos integraram suas cadeias produtivas até à produção de bens com alto conteúdo tecnológico. Ao longo do caminho, mediante a especialização, a separação geográfica das diferentes etapas de produção e a operação em escalas antes inimagináveis, atingiram um grau de competitividade que as tornaram atores chaves no plano internacional.

 

Obviamente, tudo isso torna as economias mais interdependes e, entre outras coisas, a capacidade de intervenção do poder local na economia, menos eficaz. Por exemplo, o americano médio de baixa escolaridade tem visto sua renda sendo corroída por anos, castigando, por exemplo, a chamada classe média baixa branca do país. Como consequência, e como caminho mais fácil, o protecionismo tem surgido como alternativa para os mais desalentados reclamarem suas perdas.

 

De fato, para aqueles mais cínicos, o coronavírus aparece como mais uma evidência de que o modelo de inter-dependência mundial deixa as economias locais excessivamente vulneráveis aos eventos externos. Sem dúvida, a paralisação de várias linhas de produção na China repercutirá em todo o mundo, uma vez que sua economia está integrada às cadeias produtiva de vários blocos econômicos, tais como a Ásia e E.U.A.

 

Não obstante, é importante não esquecer as razões pelas quais o mundo optou pela expansão do comércio mundial a partir do fim da segunda guerra mundial. Durante o pós-guerra até os dias de hoje, o mundo conheceu uma bonança economia sem precedentes, onde várias economias saíram da pobreza absoluta. De fato, essa lembrança é particularmente valiosa para o caso brasileiro, que, por opção, ficou à margem do processo de expansão do comercio mundial, e, não por coincidência, sua renda per capital cresceu a passos de tártaro por incríveis 40 anos.

 

Portanto, em face dessa evidência desalentadora, fica claro que estamos ainda muito longe do ponto em que os ganhos de uma maior inserção mundial possam ser questionados por eventuais desequilíbrios internos. A fase do ganha-ganha parece muito mais próximo à realidade brasileira.

João Maurício Rosal João Maurício Rosal

Economista-chefe Guide Investimentos

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