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O abre e fecha da Tesla

O bilionário Elon Musk, assim como Donald Trump, prefere o Twitter como principal meio de comunicação. E foi pela rede social que Musk anunciou que gostaria de tirar a Tesla, uma de suas empresas, a produtora de carros elétricos, da bolsa de valores. No jargão financeiro, Musk queria fechar o capital da empresa. Queria, não quer mais. Também pelo Twitter, dia 28 ele disse que estava desistindo da ideia. Mas qual a lógica para esse abre e fecha em relação ao capital da empresa?

Apesar da Tesla ser uma sensação em relação aos seus produtos e ter um carro que conseguiu a primeira nota 100 da história da principal revista automotiva dos Estados Unidos, a empresa que conseguiu fazer o carro elétrico, que antes era sinônimo de carrinho de golfe, virar algo sexy e desejado está passando alguns maus bocados financeiros e operacionais.

Porém, como toda empresa listada em bolsa, a transparência dos problemas gera questionamentos por partes dos investidores, que demandam de Musk explicações sobre os rumos da empresa e sobre a real capacidade da companhia de produzir veículos em número suficientes para cumprir as promessas de entrega e para que a empresa comece a entrar no terreno positivo.

Para Musk, alguns investidores estão se esquecendo do horizonte de longo prazo, onde os carros elétricos irão dominar o mundo e a Tesla é a empresa mais bem posicionada para abocanhar o mercado. E ser uma empresa pública pode acabar canalizando muito foco e energia para o curto prazo, em detrimento dos resultados de longo prazo.

Mas até o momento a empresa sensação não gerou um mísero dólar de lucro, apenas prejuízos, queimando muito caixa.

A empresa tem queimado de caixa mais de 1 bilhão de dólares por trimestre, e não consegue aumentar o número de unidades produzidas em velocidade suficiente para cobrir os custos crescentes (os custos estão crescendo mais rápido que a receita, o que tem assustado boa parte dos acionistas). Segundo cálculos da Bloomberg, US$6500,00 por minuto, um número insustentável.

E os investidores começaram a duvidar da capacidade de Musk a frente da empresa. Logo, recomprar as ações, acaba com a transparência dos resultados e diminui o escrutínio público dos investidores e da mídia especializada sobre Musk.

Musk já perdeu a cabeça quando foi questionado por um analista e disse que se eles não querem volatilidade e risco é melhor que nem comprem a ação. Pouco depois, com outro analista, insinuou que perguntas sobre as finanças eram chatas e que estava entediado. As falas repercutiram extremamente mal e afundou o preço da ação, além de aumentarem o custo da dívida da empresa.

O mercado já estava começando a ficar sem paciência com o temperamento elétrico (perdão pelo trocadilho) de Musk e ele também está cansado do mercado.

Porém, Musk precisa do mercado para captar mais dinheiro para manter a empresa aberta. Analistas dizem que muito em breve ele vai precisar emitir mais dívida ou até mesmo fazer uma emissão secundária de ações. Outros analistas, como o lendário professor Damodaran, dizem que a empresa só vai gerar caixa entre 2025-2026, ou seja, até lá a empresa vai precisar da mão amiga do mercado.

A fortuna de Musk (US$ 2,8 Bilhões) não cobre um ano de necessidade de caixa da Tesla.

Fato é que ele não conseguiu o apoio para fechar o capital. Apesar de controlar a empresa, os demais acionistas não concordam que blindar a empresa do escrutínio público seja uma boa ideia. Musk chegou a dizer publicamente que tinha apoio do fundo soberano da Arábia Saudita e que eles proveriam os US$70 bilhões estimados para fechar o capital da companhia.

No final do dia a empresa continua pública, o que também implica que Musk continuará a ser questionado a cada resultado ruim da empresa, até que ela comece a de fato gerar lucro. Até quando ele ou o mercado vão aguentar um ao outro, aí é outro desafio…

Victor Candido Victor Candido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

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