Nos EUA: pequenas frustrações, grandes reações

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A metade da temporada de resultados das empresas nos EUA já ficou para trás. Diante daquilo que já foi reportado, já temos condições de fazer algumas análises sobre o primeiro trimestre de 2019. Em meio a tudo isto, como todos sabem, o índice S&P 500 está novamente em níveis altos, e voltou a ser manchete mundo afora. Podemos dizer que as recentes divulgações das empresas contribuíram para o recente positivo deste índice? Será que é o momento oportuno para que o investidor aumente a sua exposição ao mercado acionário dos EUA? Após ter subido ao redor de 18% desde o início do ano, e apresentar um excelente desempenho em 2019, é um momento para reavaliarmos tal desempenho.

Para começar a discussão, parece importante salientar algo que tem acontecido nas últimas semanas: surpresas positivas nas divulgações das empresas não têm sido muito recompensadas pelo mercado, e surpresas negativas têm sido severamente punidas. Do lado “negativo”, um exemplo claro nos últimos dias foi o da empresa Alphabet (Google). Após desapontar aos analistas (receitas cresceram menos do que o esperado), a empresa teve o seu pior dia de negociações em 7 anos, e a sua ação chegou a cair expressivos 8.2%. Assim, o momento atual poderia ser facilmente classificado como “delicado”, no qual as divergências entre a “realidade” dos números e as “expectativas” dos analistas têm tido repercussões nada simétricas.

Segundo levantamento feito pelo Bank of America, empresas que reportaram lucro e vendas abaixo do esperado foram punidas com uma queda de 5.9% de suas ações, em média. Isto leva em consideração o dia da publicação dos resultados e o dia subsequente. Se considerarmos os 5 dias subsequentes à publicação do balanço, este número recua marginalmente para -5.6%. Já quando a empresa supera as expectativas do mercado em relação ao lucro e às vendas, as ações sobem, em média, “meros” 1.7% e 1.3%, considerando 1 e 5 dias subsequentes à divulgação. Vale também dizer que estes números são sempre calculados em relação ao desempenho do índice S&P 500 (a usual comparação). Ou seja: os desempenhos reportados aqui são vis-a-vis as empresas mais representativas da economia dos EUA — algo que tenta eliminar reações do mercado às demais notícias e eventos que podem ter acontecido naquele período.

Outro aspecto que chama a atenção de muitos diz respeito às margens de lucro das empresas americanas. As margens têm diminuído em relação aos últimos 2 trimestres — algo de certa forma “esperado” num momento em que a economia segue aquecida e os salários tendem a começar a subir (refletindo uma menor disponibilidade de trabalhadores). Segundo dados da FactSet, a margem de lucro do primeiro trimestre deste ano das empresas do S&P 500 (considerando os dados até aqui disponíveis) também recuou em relação ao primeiro trimestre de 2018. Fazia bastante tempo que, neste tipo de comparação (ano contra ano), as margens não diminuíam. Além disso, é também importante notar que as quedas são generalizadas, nos mais diversos setores. Do lado “positivo”, vale dizer que estas ainda seguem acima dos níveis registrados entre os anos de 2015 a 2017. Seja como for, a “preocupação” com as margens de lucro segue — e provavelmente seguirá — presente entre os analistas.

A temporada de resultados ainda não terminou, mas as reações aos próximos balanços podem ser parecidas às anteriores. Os sinais até aqui, embora não sejam alarmantes, nos levam a concluir que as pequenas “frustrações” dos analistas podem ter impactos maiores do que imaginaríamos ex-ante. Pensar desta forma é obviamente uma mera extrapolação daquilo que temos visto na atual temporada de resultados. No entanto, a julgar pelas previsões dos analistas — ainda otimistas em relação aos próximos 12 meses, segundo dados da Bloomberg —, não seria estranho se isto continuasse a acontecer. O bom desempenho das ações no período mais recente não parece ser, portanto, um motivo para que o investidor aumente a sua exposição ao mercado acionário americano neste momento.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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