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Mercados internacionais: um alívio passageiro?

Uma recessão — ao menos a chamada “recessão técnica”, no jargão econômico — corresponde à queda de PIB em dois trimestres consecutivos. No meu último artigo, comentei que a Alemanha, a tal “locomotiva” da Zona do Euro, está muito próxima deste cenário. A dúvida é: se ela entrar em recessão, como responderão as demais economias do bloco? Nos EUA, a curva de juros tem emitido sinais de alerta há algum tempo: estaríamos nos aproximando de uma recessão? Se sim, como devem responder os principais bancos centrais do mundo? Ou melhor: há espaço para alguma ação? Estas continuam a ser questões de grande debate – e preocupação — no cenário internacional. Na contramão, nas últimas horas, notícias envolvendo a relação EUA-China, conflitos em Hong Kong e a situação política em países da Europa (como Itália e Reino Unido) deram forças aos mercados. Mas até quando? Como ponderar tais “riscos”?

A sugestão de Dalio…

Numa entrevista concedida à Bloomberg, o famoso investidor Ray Dalio — fundador do maior hedge fund do mundo — afirmou ver uma probabilidade de 25% de recessão nos EUA ainda em 2019. Para 2020, segundo ele, também haveria uma probabilidade de 25% — números considerados “elevados” para padrões históricos, é claro. O momento é de fragilidade ao redor do mundo. Embora Dalio se mostre preocupado com o pouco espaço que os principais bancos centrais têm para lidar com a próxima crise econômica (algo que tenho comentado em diversas ocasiões aqui no blog!), Dalio recomendou que o FED cortasse os juros de forma gradual nos próximos meses. Em seus últimos artigos no LinkedIn, Dalio tem se mostrado cético quando à sustentabilidade de um cenário positivo e, como consequência, tem defendido uma posição comprada em ouro, por exemplo — um ativo que se valorizará ainda mais se o cenário econômico piorar e as incertezas aumentarem.

Sobre as expectativas…

Após ter cortado os juros pela primeira vez em mais de uma década no final do mês de julho, os mercados esperam que o FED corte novamente as taxas na sua próxima reunião de política monetária, marcada para os dias 17 e 18 de setembro. Se isto acontecer, os juros passarão de 2.25-2.00% para 2.00-1.75% ao ano. Além disto, vale lembrar: o FED, neste próximo encontro, também divulgará as projeções oficiais de PIB, desemprego, inflação e taxas de juros para os próximos anos — algo que ajudará investidores a entender melhor o plano da instituição comandada por Powell. Aqui, uma pergunta importante diz respeito ao tamanho do ciclo de queda dos juros: os cortes nos Fed Funds Rates serão um mero “ajuste” em meio ao ciclo atual, como parece querer Powell, ou acabarão sendo parte de um movimento maior e mais amplo, como parece apostar parte do mercado (incluindo Ray Dalio)? Dito de outra forma: os juros irão recuar até quando?

Precificando riscos…

Enquanto escrevo, nesta quinta-feira (5), os mercados internacionais passam por um bom momento, as bolsas sobem nos EUA, e o dólar passa por um alívio. Os riscos de eventos extremos – seja uma recessão em algum lugar do mundo, ou uma guerra comercial entre EUA e China — parecem ter diminuído, embora sejam todos estes muito difíceis de precificar. O noticiário do dia dá destaque à recente retomada das conversas entre EUA e China. Além disso, nas últimas horas, outros eventos têm contribuído para o maior apetite dos investidores: o conflito em Hong Kong diminuiu (concessões foram feitas, e a China não parece disposta a aumentar o problema), e a situação política tanto na Itália quanto no Reino Unido parece apontar para um desfecho um pouco melhor (embora nada fácil de vislumbrar!). Com isto, o dólar – que opera em alta desde o início do ano, e funciona como um “abrigo” em momento de crise – recua lá fora, por exemplo. Mas até quando? Embora sejam notícias positivas para os mercados, seria razoável esperar que estes “alívios” (na relação EUA-China e a situação política em países da Europa, por exemplo) continuarão adiante?

A “balança dos riscos”, ao meu ver, continua mais pesada do lado “negativo” no exterior. Fixar uma probabilidade de recessão no caso americano, como fez Dalio em sua entrevista de hoje, não é trivial. Mas pensar que poderia haver uma probabilidade de recessão de 25% neste e no próximo ano deveria nos fazer pensar nos riscos como investidores. No último mês de julho, o modelo que tenta prever recessões elaborado pelo FED de New York apontava uma probabilidade de expressivos 32% para os próximos 12 meses – o nível mais elevado desde 2009. Assim como a maior parte do mercado, acredito que o FED irá cortar os juros em setembro, e outros cortes adiante são o cenário mais provável. No resto do mundo, especialmente na Europa, a situação política seguirá provocando ondas de ceticismo, como já vimos no passado recente. A despeito das notícias das últimas horas, não parece ser o momento para ficarmos mais tranquilos.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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