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Mercados internacionais: duas versões não duram para sempre

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Os mercados internacionais têm mostrado sinais divergentes. Isto não é algo propriamente novo, mas é alarmante que tais “inconsistências” ainda estejam presentes. Nos EUA, o índice acionário S&P 500 bate recordes de alta, enquanto a curva de juros parece continuar alertando sobre a proximidade de uma nova recessão adiante. Até quando esta divergência irá durar? Como avaliar tais circunstâncias? À frente, parece que, passado o momento de euforia dos investidores, o melhor seria adotarmos uma postura um pouco mais cautelosa.  É verdade que os bancos centrais se dizem prontos para novas rodadas de estímulos, mas a desaceleração econômica nos EUA — e, possivelmente, em outras partes do mundo — parece estar contratada nos próximos trimestres. A seguir, falo um pouco mais sobre as atuais divergências dos mercados internacionais. Há duas versões sobre os mesmos fatos?

Sinais amarelos, e possíveis vermelhos…

Nos EUA, o diferencial entre as taxas de juros dos títulos do Tesouro de 10 anos e os títulos de 3 meses, tipicamente positivo em tempos “normais” (os juros mais “longos” costumam ser maiores que os mais “curtos”), entra pela sexta semana em território negativo. Os juros de 10 anos têm recuado para aproximados 1.95% ao ano, enquanto os de 3 meses oscilam ao redor de 2.15% — algo que aumenta o tal “spread” entre estas taxas, e intensifica a atenção daqueles investidores que enxergam tal variável como sendo um prenúncio de tempos difíceis à frente. Aliás, para não parecer um alerta muito pessimista, vale notar que a probabilidade de recessão calculada pelo FED de NY já está muito próxima de ultrapassar a expressiva marca de 30% — patamar que, quando ultrapassado, sempre acabou sendo um previsor de recessões por lá.

E o todo-poderoso banco central?

Há quem diga, com alguma razão, que os bancos centrais — não só o FED, mas também o ECB e outros importantes ao redor do mundo — ainda podem combater tais preocupações com as armas que ainda lhes restam. Embora o discurso e as suas sinalizações tenham mudado de forma drástica nas últimas semanas — já não indicam que continuarão a normalizar as suas políticas monetárias, mas sinalizam que podem adotar novos estímulos às suas economias, se necessário —, não há garantias de que conseguirão evitar qualquer tipo de desaceleração nos próximos trimestres. Aliás, embora eu tenha há algum tempo destacado a provável desaceleração econômica dos EUA em textos recentes, a verdade é que os dados de atividade global não parecem ser dos melhores. O índice PMI (índice gerente de compras, na sigla em inglês) da indústria global, correlacionado com o crescimento do lucro das empresas do S&P 500, por exemplo, já sinaliza dados frustrantes para o segundo trimestre deste ano.

E a guerra comercial continua…

Para aqueles que viram com bons olhos as recentes manifestações de EUA e China, vale destacar que o PIB dos EUA ainda deve continuar a ser negativamente impactado pelo comércio internacional. Economistas têm revisado o crescimento americano no segundo trimestre para baixo e, embora seja verdade que as importações da China tenham recuado ao redor de 25% entre janeiro e maio deste ano, estas foram mais do que compensadas por importações vindas de outros países, incluindo Vietnam, México, Índia, Coreia do Sul e Taiwan. Tal desaceleração econômica é, em última análise, algo que tem contribuído para a revisão baixista das expectativas com relação às empresas na próxima divulgação de resultados. Segundo o consenso de mercado, o lucro das empresas contrairá aproximados 2.4% na comparação com o segundo período de 2018. Mais: engana-se quem apenas olha o recorde de pontos do S&P 500 como sendo uma prova da força e capacidade das empresas, e ignora a impressionante recompra de ações que estas fizeram até aqui — algo que contribuiu para a valorização de suas ações, é claro.

Em suma: há claras divergências nos mercados internacionais. Enquanto os mercados de renda fixa — e também o de commodiites, com os preços do ouro em alta, por exemplo — indica uma maior probabilidade de recessão adiante, o mercado de renda variável bate recordes positivos. Considerando que as recompras de ações das empresas têm ajudado na valorização dos índices, e que o mercado de renda fixa segue apontando dias difíceis à frente, parece haver neste momento um risco ainda mais assimétrico para a renda variável americana. As ações, aparentemente “caras” (o índice preço/lucro das empresas do S&P 500 está ao redor de 18x, por exemplo), podem passar por ajustes no curto prazo. É possível que não vejamos uma recessão num curto espaço de tempo, mas não podemos ignorar a crescente probabilidade de correções no futuro próximo. Vale lembrar que os mercados emergentes também costumam ser afetados por estes movimentos, e é difícil continuarmos blindados aos chamados “spillovers” vindos dos países avançados. Os mercados internacionais parecem contar histórias divergentes, embora tenham como base o mesmo “pano de fundo”. Isto não deve durar para sempre.

 

 

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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