Fique por dentro do mundo da economia!


CADASTRE-SE AQUI

Mercados: Estamos todos conectados

A importância dos países emergentes nos mercados internacionais tem crescido ao longo dos últimos 20 anos. Isto se deve à maior integração deste grupo de países com o resto do mundo, seja via comércio ou mercados financeiros. Desta forma, um “choque” num país emergente pode ter efeitos significativos sobre os mercados de outros emergentes ou mesmo países desenvolvidos — um efeito que anos atrás não era tão relevante. Na literatura econômica, estes efeitos que “transbordam” para outros mercados são conhecidos como “spillovers”. Mas o que são estes spillovers e qual a verdadeira importância destes sobre os diferentes mercados?

Nos últimos 20 anos, a participação dos países emergentes com o resto do mundo aumentou de forma dramática. Segundo um importante estudo do FMI (“Global Financial Stability Report“), os países emergentes contribuíram com mais de 50% do crescimento global nos últimos 15 anos e a sua fração no PIB global subiu para aproximados 40%. O comércio entre países emergentes e desenvolvidos já supera o comércio entre os desenvolvidos. Aliás, o comércio entre emergentes é 20 vezes maior do que era no início da década de 1990. Quanto à integração financeira, vale dizer que a exposição dos bancos dos países desenvolvidos aos países emergentes dobrou no período de 2005 a 2013. Não é novidade dizer que após anos de juros baixíssimos em economias como EUA e Europa, um grande fluxo de recursos migrou para os emergentes em busca de retornos esperados maiores. Isto, é claro, fez — e continuará a fazer — com que líderes globais levem em consideração tudo aquilo que que afeta a este grupo de países.

Em retrospectiva, no entanto, o ritmo da integração financeira dos emergentes com o resto do mundo foi menor do que a comercial. Mas, independentemente da tendência comercial, há sim motivos para acreditar que a integração financeira dos emergentes continuará a crescer nos próximos anos. Isto pode acontecer, entre outros motivos, por conta do “contágio” via “portfolio”. Grandes gestores de recursos internacionais podem contribuir para propagar eventuais “choques” de — e para — emergentes. Os spillovers podem ser vistos como “transbordamentos” com direção: às vezes o país os “recebe”; às vezes o país os “gera”.  Num mundo cada vez mais conectado, economistas como Francis Diebold (University of Pennsylvania) têm se dedicado ao estudo destes efeitos (spillovers entre mercados, setores e empresas). Entender as consequências de um aumento da volatilidade nos EUA sobre os mercados brasileiros (bolsa, renda fixa, câmbio, etc.) sempre foi importante para nós. Nos últimos anos, no entanto, tornou-se cada vez mais importante entender os efeitos de um aumento da volatilidade no Brasil sobre os mercados de EUA, Europa, e outros desenvolvidos.

Spillovers financeiros ocorrem quando flutuações de preço de um ativo (ou volatilidade) tornam-se o gatilho para mudanças nos preços de outros ativos. Embora uma maior integração dos países emergentes possa ser vista pelo lado positivo (melhor incorporação de notícias nos mercados internacionais, por exemplo), a verdade é que este processo também traz consequências menos desejáveis, como a transmissão de um excesso de volatilidade a outros países. Os emergentes não devem ser vistos como fontes de volatilidade para o resto do mundo apenas em episódios de crises, mas, também, em tempos de normalidade. Este é um dos importantes recados do FMI no estudo que citei anteriormente. Os spillovers, portanto, são mais abrangentes do que o chamado “efeito-contágio”, tradicionalmente utilizado para referir-se àqueles efeitos provenientes de uma crise em algum país. Segundo o FMI, os spillovers provenientes de países emergentes explicam uma parcela significativa da variação dos retornos das ações e do câmbio em outros países: mais do que 30% nos avançados, e mais do que 40% nos próprios emergentes. Desde a crise financeira de 2008 estes efeitos têm aumentando.

 

 

Em suma: as turbulências em outros países podem ter efeitos significativos sobre os nossos mercados, e estes impactos — “transbordamentos”, em português; ou “spillovers”, em inglês — têm se tornado cada vez mais importantes nos últimos 20 anos. Este é apenas um lembrete para que os investidores continuem a pensar no cenário internacional a despeito de todos os desafios que afetam a economia/política local. A conexão dos mercados internacionais só tende a aumentar nos próximos anos, embora possamos ser menos otimistas quanto à tendência comercial. Países como a China, cujo mercado financeiro ainda não está tão conectado com o resto do mundo, devem contribuir para que os spillovers financeiros continuem a ser uma fonte de atenção. Estamos todos conectados.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

143 visualizações

Utilizamos cookies para melhorar a sua navegação

Entendi
Bitnami