Mercado de Trabalho: O mundo pede mais paciência (e cautela)

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Na semana passada, dados fortes sobre o mercado de trabalho dos EUA foram divulgados. Em dezembro, foram criados 312 mil empregos, superando, e muito, as estimativas dos analistas (117 mil). Foi o mês mais forte desde fevereiro. Além disso, a média do salário/hora cresceu 3,2%, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Não só superou o previsto, mas também colocou os salários numa tendência ascendente um pouco mais clara. Por fim, a taxa de participação subiu de 62,9% para 63,1%. Estes dados, tudo mais constante, deveriam ter aumentado o receio quanto ao superaquecimento da economia dos EUA. Como reagiram os mercados? Como reagirá o Fed? É motivo para comemorar e sermos mais agressivos como investidores?

Hoje, o cenário-base do Fed para 2019 parece consistir em 2 elevações de juros. Isto foi sinalizado na última reunião de política monetária, no final do ano passado. Embora não seja uma certeza absoluta, após as 4 elevações de 2018, ainda poderíamos esperar mais ajustes nos meses à frente (em minha opinião, isto está longe de ser uma certeza!). Por conta de um mercado de trabalho muito aquecido, seria lógico esperar alguma pressão inflacionária que, por sua vez, deveria ser combatida com mais juros pelo banco central. No curto prazo, portanto, seria de se esperar que as ações tivessem recuado neste mesmo dia, e que o mercado de juros precificasse mais juros à frente. Mas não foi isto aquilo que aconteceu no último dia 4 de janeiro. Muito pelo contrário.

Vamos aos números. No dia das divulgações sobre o mercado de trabalho, o índice S&P 500 subiu 3,4%; o Dow Jones subiu 3,3%; e o Nasdaq, mais relacionado ao setor de tecnologia, avançou 4,3%. Recuperaram as perdas do início do ano, após o pior início de ano desde 2000. No acumulado da semana, estes índices subiram 1,9%; 1,6% e 2,3%, respectivamente. Ao mesmo tempo, os juros dos títulos soberanos de 10 anos — uma importante referência para os mercados internacionais — recuaram 11 pontos base, para 2,66%. O que explica tais movimentos? Como interpretar recentes oscilações? O que podemos esperar à frente? Estaríamos diante de uma mudança de cenário para 2019, após um 2018 mais difícil para os ativos de risco?

Jay Powell é uma das explicações. O presidente do Fed, na mesma sexta-feira, fez um discurso tranquilizador numa conferência em Atlanta. Fez, como era de se esperar, boas considerações sobre a economia americana, tentando diminuir as crescentes preocupações do mercado com relação aos próximos meses — tópico que tenho destacado nos últimos textos aqui do blog. Além disso — e de forma ainda mais importante! —, afirmou que o Fed adotaria uma postura mais “paciente” com relação à normalização da política monetária. Também disse que não hesitaria um fazer uma pausa na normalização do balanço de ativos da instituição, caso isto seja necessário. Tais afirmações explicam, ainda que de forma pontual, a recuperação dos mercados acionários, e a queda dos juros dos títulos. E sobre o ano de 2019?

Há muita incerteza no radar dos investidores e, como tenho argumentado em textos recentes, nada parece sinalizar para dias mais tranquilos ao longo do ano. Os primeiros dias de 2019 não têm sido muito diferentes daquilo que observamos em 2018: volatilidade, e dúvidas quanto à capacidade de sustentar mercados num ciclo de recuperação econômica que já dura anos nos EUA. Embora tenhamos comemorado há poucos meses os 10 anos da última crise, níveis de dívida elevados ao redor do mundo preocupam, e há um receio evidente sobre uma desaceleração econômica global. Paul Samuelson teria dito que os mercados previram 9 das últimas 5 recessões, salientando o “exagero” dos investidores em certos momentos. Embora possa ser mais um destes sinais falsos, como investidores, vale ter paciência e cautela redobrada neste início de ano.

 

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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