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Mario Draghi: despedida com gostinho de dúvidas

O presidente do banco central europeu (BCE), Mario Draghi, participou nesta semana (quinta-feira, dia 24) da sua última reunião de política monetária. No final do mês, deixará o cargo para a recém-nomeada Christine Lagarde, quem terá a missão de comandar a instituição nestes tempos de incertezas elevadas. Há, portanto, muitas dúvidas no ar. O que podemos esperar pela frente? Como continuará o jogo de forças dentro do BCE? Como continuarão as políticas? Antes disso, o que dizer sobre a última reunião de Draghi e o seus anos de mandato?

Nesta semana, Draghi manteve as taxas de juros e não alterou as medidas anunciadas na reunião de setembro, em linha com o esperado pela maior parte dos investidores. Vale lembrar: no encontro do último mês, além de cortar as taxas de juros (para níveis ainda mais negativos), anunciou a volta do programa de compra de ativos, após uma pausa de praticamente 1 ano, conhecido como quantitative easing (QE). O ritmo inicial será de 20 bilhões de euros a partir de novembro. Em sua despedida, Draghi disse que estava orgulhoso de sua gestão, e que parte do seu legado havia sido “nunca desistir”. É verdade: apesar de alguns “erros” que poderíamos apontar nestes últimos 8 anos, Draghi ficou conhecido por salvar a Zona do Euro em 2012, e dizer que faria “o que fosse necessário” para isso. Reverteu, com isto, as expectativas do mercado. Será sempre lembrado por ter adotado medidas de estímulo sem precedentes na região – e cujas consequências, embora positivais até aqui, ainda serão julgadas no futuro.

De forma prática, o BCE manteve a sua principal sinalização nesta quinta-feira (24): as taxas de juros não subirão até que as projeções de inflação convirjam de maneira robusta para um nível próximo de 2%. Hoje, a inflação está abaixo de 1%, muito longe do ideal. Na conferencia de imprensa, pós-anúncios, Draghi voltou a pedir esforços dos governos da Zona do Euro para que reformas que aumentem a produtividade e melhorem o mercado de trabalho nos países da região; além de estímulos fiscais, quando estes forem possíveis. Além disso, e de forma especialmente importante, Draghi parece ter usado a oportunidade para diminuir a tensão dentro do próprio BCE. Afinal, os anúncios de setembro foram bastante controversos, e os presidentes dos bancos centrais de Alemanha, França, Holanda e Áustria se mostraram publicamente contrários aos maiores estímulos, por exemplo. Draghi, portanto, referiu-se à precária situação da economia global, e à aceitação de juros mais baixos ao redor do mundo diante deste quadro desafiador.

À frente, podemos esperar um difícil mandato para Lagarde como presidente do BCE. Ela, diga-se de passagem, esteve presente nesta última reunião de política monetária da instituição, embora não tenha participado das discussões. Além de estarmos em tempos não-convencionais, Lagarde irá encarar um BCE dividido: a ala pró-estímulos, na qual estava inserido Draghi, enfrenta uma oposição crescente de alguns membros menos favoráveis a estas políticas, entre os quais poderíamos destacar o presidente do banco central alemão. Como continuará o jogo de forças dentro do BCE é algo difícil de responder. Ao que tudo indica, Lagarde deve dar continuidade às políticas reiniciadas por Draghi. Poderíamos ver mais algum corte de juros até o final de 2019, e um volume maior do QE a partir de 2020. Isto se tornará mais “fácil” de defender caso os dados econômicos da Zona do Euro continuem a piorar. Nesta semana, Draghi destacou que a fraqueza no setor de manufaturas está começando a se espalhar para o setor de serviços – algo que corrobora a necessidade dos estímulos anunciados em setembro; e que comentei recentemente em outro texto para o blog da Guide.

A despedida de Draghi oficial será na semana que vem, numa cerimônia na segunda-feira, e que contará com discursos dos presidentes da Alemanha e da França. O italiano Draghi, aos 72 anos, deixa um grande legado de resistência às mais desafiadoras expectativas que por vezes pareciam impossíveis de ultrapassar. Como disse antes, o resultado das políticas de estímulo adotadas nos últimos anos tem sido positivo até aqui, e parecem ter evitado uma piora ainda maior na Zona do Euro (há estudos sobre estes efeitos). No entanto, somente com o tempo seremos capazes de fazer um balanço mais frio deste mandato de Draghi. Até lá, e mesmo para aqueles que ficarão com saudades de Draghi, vale ficarmos atentos a estes possíveis efeitos colaterais das taxas de juros negativas e expansão impressionante do balanço de ativos do banco central. Foi uma despedida com gostinho de dúvidas no ar.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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