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Mais do que o necessário: quem substituirá Mario Draghi?

Mario Draghi precisará ser substituído. O atual presidente do banco central europeu (ECB), após 8 anos de mandato, deixará o seu cargo no próximo mês de outubro. No comando de uma das instituições mais importantes do mundo, o sucessor de Draghi se encontrará não só com os desafios de manter a Zona do Euro na rota do crescimento econômico e inflação ao redor da meta, mas terá a responsabilidade de substituir um dos economistas mais respeitados da atualidade. Quais são as opções mais cotadas neste momento? Qual será o maior legado de Draghi? O que mais está em jogo na Europa?

Um jogo de muitas cartas

 Os europeus, após terem ido recentemente às urnas para escolher os membros do Parlamento, vivem um momento delicado. A fragmentação política é tema-chave para compreender os desafios econômicos da região, e parte da insatisfação e escolhas mais radicais da população parece ser uma consequência das dificuldades econômicas dos últimos anos. Hoje, a escolha do sucessor de Draghi parece depender em grande parte das negociações entre França e Alemanha, os mais fortes do bloco. Em especial, os líderes destes países estão em discussões sobre quem irá substituir Jean-Claude Juncker no comando da Comissão Europeia nos próximos 5 anos. A votação se dará em julho. Se o nome defendido pela chanceler Merkel ganhar, parece ser pouco provável que um alemão — como Jens Weidman, quem parece liderar a lista de prováveis comandantes do ECB — assuma o cargo de Draghi.

Um pouco sobre Draghi…

Muitos analistas atribuem ao italiano de 71 anos o mérito de ter salvado o Euro do colapso anos atrás. Em especial, o ponto de inflexão da Zona do Euro parece ter acontecido em 2012, num dos piores momentos do bloco desde a sua criação. Em julho daquele ano, Draghi afirmou, em discurso, que faria “tudo o que fosse necessário” (“whatever it takes”) para salvar a moeda. Funcionou e trouxe credibilidade à instituição. Segundo análise recente do Financial Times, Draghi foi, aos poucos, conseguindo mudar a forma de atuação do ECB, originalmente criado aos moldes do Bundesbank, o banco central alemão. Isto quer dizer que a obsessão por manter a inflação baixa e sob controle foi dando algum espaço à preocupação com relação ao crescimento econômico e aos ciclos normais de qualquer economia. Após a crise financeira global, o ECB reduziu os juros, adotou pacotes de compra de ativos e fez diversas sinalizações sobre os próximos passos — estratégias semelhantes às adotadas pelo banco central dos EUA, hoje chefiada por Jerome Powell.

Sejamos mais críticos…

A despeito da admiração por Draghi, é verdade que faltou em diversas vezes mais rapidez ao banco central europeu. Mais do que isso: neste período pós-crise nos EUA, por duas vezes a instituição esteve muito próxima de cometer erros graves, iniciando uma normalização de juros mais rápida do que a condizente com a situação econômica. Embora tenha “salvado” o Euro do colapso, a verdade é que a Zona do Euro tem uma inflação por volta de 1.5% ao ano (um pouco abaixo da meta), e um crescimento econômico ainda medíocre (em março, a instituição revisou o crescimento esperado para o PIB deste ano, de 1.7% para 1.1%, por exemplo). Com as taxas de juros em níveis ainda muito baixos, enfrentar uma nova crise no futuro será ainda mais difícil do que no passado. É neste contexto que Draghi, já numa espécie de “despedida”, decidiu em março mudar o tom, anunciando um pacote de empréstimos baratos aos bancos (cuja sigla é TLTROs), semelhante àquilo que fora feito em 2016 e 2017. Os detalhes da nova fase serão anunciados no dia 6 de junho, e o objetivo é incentivar o crédito à economia real. Apelidada por alguns de “bazooka” da política monetária, é outro dos legados de Draghi para a próxima administração.

Tudo pode acontecer…

Às vésperas da substituição de Draghi, vale lembrar que a sua nomeação, em 2011, não era dada como óbvia. Aliás, parece ter sido mais um “acidente” de percurso. Axel Weber, o então presidente do Bundesbank, era o mais cotado. Divergências com demais líderes da região, no entanto, fizeram com que o alemão deixasse o seu cargo, abrindo o caminho para que outra pessoa sucedesse a Jean-Claude Trichet. Sem experiência como banqueiro central, Draghi havia ganhado notoriedade no mercado privado, e passado pelo Banco da Itália. Hoje, além de Weidman, há outros possíveis nomes para o lugar de Draghi: Erkki Liikanen, ex-presidente do banco central da Finlândia; François Villeroy de Galhau, do banco central francês; e Benoît Couré, do próprio ECB, entre outros. Ao próximo presidente, caberá o desafio de normalizar a política monetária da Zona do Euro, mantendo a inflação ao redor da meta e dando condições para o crescimento econômico. O sucessor de Mario Draghi precisará fazer muito mais do que o “necessário”.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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